Quem sou eu

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Entre chefleras e colombinas / Among chefleras and columbines

Começo a escrever este post, ainda indecisa sobre o tema a abordar – o fim do horário do verão, a proximidade do carnaval, o sonho comigo mesmo, desmemoriada, vagando por São Paulo, ou tudo isso junto e misturado… -- quando recebo pelo celular a notícia: uma amiga muito querida, 53 anos, acaba de ser operada de um câncer devastador e os prognósticos para  ‘daqui em diante’ são desafiadores.  

Muda ao telefone, totalmente incapaz de reagir à notícia que não ouso adjetivar, sento no chão para chorar, silenciosamente, enquanto acabo de ouvir o relato da amiga que temos em comum e que, generosamente, tomou para si a missão de compartilhar  comigo a triste novidade.
Minha primeira reação, ao terminar a conversa telefônica, é me levantar do tapete e correr em direção ao jardim de inverno, na sala ao lado, para olhar a cheflera que, há quase dezoito anos, ganhei da amiga hoje doente. Me presentear com a planta, foi a forma gentil e delicada que ela encontrou de selar o encerramento de um projeto que conduzimos juntas. Um trabalho muito bem sucedido, que na verdade dependeu muito mais dela do que de mim, mas que nos uniu. Possibilitou que nos reconhecêssemos em muitas idiossincrasias – ela gaguejava e eu suava em bicas, nas situações de nervosismo – ; e que nos identificássemos em muitas emoções e sentimentos,  inclusive, no amor pelos felinos– na época ela era dona da gata Debbie, que lhe lambia as sobrancelhas sempre que a flagrava dormindo, e eu da Clementina, que miava em cadência de ópera chinesa, todas as vezes em que eu chegava em casa depois do horário, que ela, a gata, considerava rotina.

Em 1999, quando a recebi de presente, a cheflera tinha três palmos de altura. Na pequena sacada do meu apartamento de solteira, em Botafogo (*), ganhou corpo e mais alguns bons centímetros. Até que, em 2002, quando me casei e mudei, foi beneficiada pelo ‘dedo verde’ do meu marido e começou a ganhar a estatura de arbusto que tem hoje. Uma ‘arvoreta’ que, junto com outras plantas, enche de sombra nosso jardim de inverno; refresca os passeios matinais do nosso jabuti, Péricles; e, sempre, sempre me faz lembrar de quem lançou mão dela como forma de celebrar a amizade comigo.

É olhando para essa planta que viajo numa epifania. Mentalmente, revejo o sorriso da minha amiga, revisito toda a energia positiva que ela sempre transmitiu e me dou conta que ela está ali, tirando uma mecha de cabelo da testa, com o gesto que lhe é tão peculiar, me perguntando, despretensiosamente: ‘sobre o quê mesmo vai ser o seu post deste sábado?’

A cheflera de 18 anos 
Diante da minha possibilidade de apenas gaguejar uma tentativa de resposta, ela me interrompe de forma impaciente e  urgente, para retomar o ponto em que, no início deste post, fui interrompida: 

“Shiiiiiii! Hoje, à meia-noite, termina o horário de verão. Portanto, nós, que estamos na porção do país afetada por ele, temos que atrasar nossos relógios em uma hora. Vamos ganhar uma hora a mais para dormir, para sonhar, para olhar o sol quando ele nascer e para aquecer os preparativos para o carnaval, na semana que vem. Não desperdice nenhum segundo, Vera Dias! Se a noite foi mal dormida, assombrada por pesadêlos, pule dessa cama, lave essa cara e tome um café bem forte e quente. Nada que um bom despertar não cure!”.

…Nada que um bom despertar não cure.

E aqui estou eu diante do espelho; de cara lavada, dentes escovados, saboreando o que restou da xícara de café, enquanto ajusto minha fantasia de colombina. É tão velha que, até começar a pensar no que escreveria neste post, só conseguia resgatá-la em sonhos – ou seriam delirios? – em que eu vagava vestida de cor-de-rosa por uma São Paulo desbotada, sem a memória de mim mesma, ou de onde estariam pierrôs e arlequins… Pois, aqui estou, eu colombina, pronta para a folia. Porque brincar este carnaval é o que posso fazer de melhor para honrar essa amiga, que hoje briga pela vida. Botar o meu bloco na rua em seu nome é a oração que escolhi para pedir aos deuses por essa que sempre me sorri através de uma cheflera.

Evoé! Querida! Tenho certeza que em 2018 rasgaremos nossas fantasias juntas.

Em função do carnaval e de todos os blocos em que pretendo desfilar, não publicarei novo post no próximo sábado, 25/02. O 2xTrinta cairá, literalmente, na folia. Retornarei com novas crônicas, no dia 04 de março – no sábado de cinzas J.
Se você gostou deste post, por favor, o compartilhe com sua rede de relacionamentos, clicando em um dos botões que aparecem no rodapé da tradução em inglês abaixo. Se deseja, a partir de agora, receber notificações dos novos posts do blog no seu próprio email, preencha o requerimento no espaço-retângulo logo abaixo do meu perfil, na coluna à direita deste artigo.
……………………………………………………………………………….

I start writing this post not sure about its theme. I do not know if I will approach the end of daylight saving in Brazil, the Carnival season, or the dream I had with myself wandering through São Paulo without knowing who I was. I am up to make a decision when a friend calls me to share that one of our dearest friends, 53 years old, is seriously sick.

Speechless and unable to react to such news, I sit on the floor and cry silently. When the call ends, my first reaction is to stand up and run to the porch in the next room to look at the cheflera my sick friend gave me eighteen years ago. Giving me that plant was her kind way of sealing the closure of a project we run together. A well-succeeded work, which in fact depended much more on her than on me, but bonded us. It brought us the opportunity to better know each other and to recognize ourselves in a lot of things we had in common.

In 1999, when I received it as a gift, the cheflera was three palms high. On the small balcony of my maiden apartment in Botafogo (*), she gained body and a few more inches. Until 2002, when I got married and moved, and it was benefited by my husband's 'green finger' and began to gain the shrub stature it has today. A 'tree' that, along with other plants, fills our winter garden with shade; Refreshes the morning walks of our jabuti, Pericles; And always reminds me of whoever used it as a means of celebrating friendship with me.

It is looking at this plant that I have an epiphany. Mentally, I review my friend's smile, revisit all the positive energy she has always conveyed and realize that she is there, pulling a lock of hair from her forehead with the gesture that is so peculiar to her, asking me, unpretentiously: About what will be your post this Saturday?
Faced with my possibility of just stuttering an attempt to answer, she interrupts me impatiently and urgently, to resume the point at which, at the beginning of this post, I was interrupted:

"Shiiiiiii! Today, at midnight, DST ends. Therefore, we, who are in the portion of the country affected by it, have to delay our watches in an hour. We will earn an extra hour to sleep, to dream, to watch the sun rising and to warm up for the carnival next week. Do not waste a second, Vera Dias! If the night was badly slept, haunted by nightmares, jump from this bed, wash that face and have a strong strong coffee. Nothing that a good awakening does not cure! ".

... Nothing that a good awakening does not cure.

And here I stand before the mirror; washed face, brushed teeth, enjoying what was left of my cup of coffee, while adjusting my columbine costume. It is so old that until I started thinking about what I would write in this post, I could only rescue it in dreams - or would they be nightmares? - In which I wandered dressed in pink through a faded Sao Paulo, without the memory of myself, or a clue of where pierros and harlequins would be ... Well, here I am, me = columbine, ready for the revelry. Because playing this carnival is what I can do best to honor this friend, who fights for life today. Putting my block on the street in her name is the prayer that I chose to ask the gods for the one who has always smiled at me through a cheflera.

Horey, my dear friend! I'm sure that in 2018 Carnival we'll rip our fantasies together.

(*) Botafogo – name of a neighborhood in Rio de Janeiro
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Due to the carnival and all the blocks in which I intend to parade, I will not publish a new post next Saturday, February 25th. The 2xTrinta will fall, literally, in the revelry. I will return with new chronicles, on March 4 - on Ash Saturday

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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Entre chefleras e colombinas

Começo a escrever este post, ainda indecisa sobre o tema a abordar – o fim do horário do verão, a proximidade do carnaval, o sonho comigo mesmo, desmemoriada, vagando por São Paulo, ou tudo isso junto e misturado… -- quando recebo pelo celular a notícia: uma amiga muito querida, 53 anos, acaba de ser operada de um câncer devastador e os prognósticos para  ‘daqui em diante’ são desafiadores.  

Muda ao telefone, totalmente incapaz de reagir à notícia que não ouso adjetivar, sento no chão para chorar, silenciosamente, enquanto acabo de ouvir o relato da amiga que temos em comum e que, generosamente, tomou para si a missão de compartilhar  comigo a triste novidade.

A cheflera de três palmos, dada pela amiga, que hoje é arbusto
Minha primeira reação, ao terminar a conversa telefônica, é me levantar do tapete e correr em direção ao jardim de inverno, na sala ao lado, para olhar a cheflera que, há quase dezoito anos, ganhei da amiga hoje doente. Me presentear com a planta, foi a forma gentil e delicada que ela encontrou de selar o encerramento de um projeto que conduzimos juntas. Um trabalho muito bem sucedido, que na verdade dependeu muito mais dela do que de mim, mas que nos uniu. Possibilitou que nos reconhecêssemos em muitas idiossincrasias – ela gaguejava e eu suava em bicas, nas situações de nervosismo – ; e que nos identificássemos em muitas emoções e sentimentos,  inclusive, no amor pelos felinos  – na época ela era dona da gata Debbie, que lhe lambia as sobrancelhas sempre que a flagrava dormindo, e eu da Clementina, que miava em cadência de ópera chinesa, todas as vezes em que eu chegava em casa depois do horário, que ela, a gata, considerava rotina.

Em 1999, quando a recebi de presente, a cheflera tinha três palmos de altura. Na pequena sacada do meu apartamento de solteira, em Botafogo (*), ganhou corpo e mais alguns bons centímetros. Até que, em 2002, quando me casei e mudei, foi beneficiada pelo ‘dedo verde’ do meu marido e começou a ganhar a estatura de arbusto que tem hoje. Uma ‘arvoreta’ que, junto com outras plantas, enche de sombra nosso jardim de inverno; refresca os passeios matinais do nosso jabuti, Péricles; e, sempre, sempre me faz lembrar de quem lançou mão dela como forma de celebrar a amizade comigo.

É olhando para essa planta que viajo numa epifania. Mentalmente, revejo o sorriso da minha amiga, revisito toda a energia positiva que ela sempre transmitiu e me dou conta que ela está ali, tirando uma mecha de cabelo da testa, com o gesto que lhe é tão peculiar, me perguntando, despretensiosamente: ‘sobre o quê mesmo vai ser o seu post deste sábado?’

Diante da minha possibilidade de apenas gaguejar uma tentativa de resposta, ela me interrompe de forma impaciente e  urgente, para retomar o ponto em que, no início deste post, fui interrompida: 

“Shiiiiiii!!! Hoje, à meia-noite, termina o horário de verão. Portanto, nós, que estamos na parte do país afetada por ele, temos que atrasar nossos relógios em uma hora. Vamos ganhar uma hora a mais para dormir, para sonhar, para olhar o sol quando ele nascer e para aquecer os preparativos para o carnaval, na semana que vem. Não desperdice nenhum segundo, Vera Dias! Se a noite for mal dormida, assombrada por pesadelos, pule da cama, lave a cara e tome um café bem forte e quente. Não há nada que um bom despertar não cure!”.

…Nada que um bom despertar não cure.

E aqui estou eu, neste sábado, diante do espelho; de cara lavada, dentes escovados, saboreando o que restou da xícara de café, enquanto ajusto minha fantasia de colombina. É tão velha que, até começar a pensar no que escreveria neste post, só conseguia resgatá-la em sonhos – ou seriam delirios? – em que eu vagava vestida de cor-de-rosa por uma São Paulo desbotada, sem a memória de mim mesma, ou de onde estariam pierrôs e arlequins…

Pois, aqui estou, eu colombina, pronta para a folia.
Porque brincar este carnaval é o que posso fazer de melhor para honrar essa amiga que hoje briga pela vida. Botar o meu bloco na rua em seu nome é a oração que escolhi para pedir aos deuses por essa que sempre me sorri através de uma cheflera.

Evoé! Querida! Tenho certeza de que em 2018 rasgaremos nossas fantasias juntas.

Em função do carnaval e de todos os blocos em que pretendo desfilar, não publicarei novo post no próximo sábado, 25/02. O 2xTrinta cairá, literalmente, na folia. Retornarei com novas crônicas, no dia 04 de março – no sábado de cinzas J.
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Among Chefleras and Columbines

I start writing this post not sure about its theme. I do not know if I will approach the end of daylight saving in Brazil, the Carnival season, or the dream I had with myself wandering through São Paulo without knowing who I was. I am up to make a decision when a friend calls me to share that one of our dearest friends, 53 years old, is seriously sick.

Speechless and unable to react to such news, I sit on the floor and cry silently. When the call ends, my first reaction is to stand up and run to the porch in the next room to look at the cheflera my sick friend gave me eighteen years ago. Giving me that plant was her kind way of sealing the closure of a project we run together. A well-succeeded work, which in fact depended much more on her than on me, but bonded us. It brought us the opportunity to better know each other and to recognize ourselves in a lot of things we had in common.

In 1999, when I received it as a gift, the cheflera was three palms high. On the small balcony of my maiden apartment in Botafogo (*), she gained body and a few more inches. Until 2002, when I got married and moved, and it was benefited by my husband's 'green finger' and began to gain the shrub stature it has today. A 'tree' that, along with other plants, fills our winter garden with shade; Refreshes the morning walks of our jabuti, Pericles; And always reminds me of whoever used it as a means of celebrating friendship with me.

It is looking at this plant that I have an epiphany. Mentally, I review my friend's smile, revisit all the positive energy she has always conveyed and realize that she is there, pulling a lock of hair from her forehead with the gesture that is so peculiar to her, asking me, unpretentiously: About what will be your post this Saturday?
Faced with my possibility of just stuttering an attempt to answer, she interrupts me impatiently and urgently, to resume the point at which, at the beginning of this post, I was interrupted:

"Shiiiiiii! Today, at midnight, DST ends. Therefore, we, who are in the portion of the country affected by it, have to delay our watches in an hour. We will earn an extra hour to sleep, to dream, to watch the sun rising and to warm up for the carnival next week. Do not waste a second, Vera Dias! If the night was badly slept, haunted by nightmares, jump from this bed, wash that face and have a strong strong coffee. Nothing that a good awakening does not cure! ".

... Nothing that a good awakening does not cure.

And here I stand before the mirror; washed face, brushed teeth, enjoying what was left of my cup of coffee, while adjusting my columbine costume. It is so old that until I started thinking about what I would write in this post, I could only rescue it in dreams - or would they be nightmares? - In which I wandered dressed in pink through a faded Sao Paulo, without the memory of myself, or a clue of where pierros and harlequins would be ... Well, here I am, me = columbine, ready for the revelry. Because playing this carnival is what I can do best to honor this friend, who fights for life today. Putting my block on the street in her name is the prayer that I chose to ask the gods for the one who has always smiled at me through a cheflera.

Horey, my dear friend! I'm sure that in 2018 Carnival we'll rip our fantasies together.

(*) Botafogo – name of a neighborhood in Rio de Janeiro
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Due to the carnival and all the blocks in which I intend to parade, I will not publish a new post next Saturday, February 25th. The 2xTrinta will fall, literally, in the revelry. I will return with new chronicles, on March 4 - on Ash Saturday

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sábado, 11 de fevereiro de 2017

Emoções zapeadas / Zapped emotions

Compartilhar, abraçar, acolher.  A conjugação desses três verbos pode parecer fora de lugar em um ano que ainda não completou seus primeiros sessenta dias, mas já se caracteriza como intolerante, violento, conflagrado.  Está tão distante da virulência dos fatos que vêm marcando o cotidiano do país e do mundo, que, zapeando pelos noticiários, na manhã da última quarta-feira, me detive no programa ‘Encontro com Fátima Bernardes’, atraída pelo sorriso iluminado de Maha Mamo e pela sua história.

Maha  ativista na campanha da ONU pelo fim da apatridia
 Maha é apátrida. Ela tem 28 anos, nasceu no Líbano, mas nunca obteve sua cidadania pelo fato de seus pais serem sírios e de religiões diferentes -- o pai é cristão e a mãe  muculmana – o que tanto no Líbano como na Síria torna o casamento ilegal e a família por ele gerada oficialmente inexistente. Como no Líbano a nacionalidade é uma herança familiar – não basta nascer no país para ser considerado libanês -- Maha e os dois irmãos (Souad e Eddy)  cresceram sem serem legalmente reconhecidos. Uma vida sem qualquer direito civil, quase clandestina.  Uma vida que os três desejavam transformar em existência de fato e de direito.

Foi assim que, em 2014, Maha resumiu o que ela e os irmãos vinham enfrentado desde sempre e enviou cartas pedindo asilo a todos os países com representação diplomática em Beirute. O Brasil foi o único que lhes abriu as portas e, meses depois, lhes deu um visto de refugiados apátridas. A condição que lhes dá direitos equivalentes aos dos residentes no país. O certificado de que existem, apesar de não terem nacionalidade. Existia, no caso de Eddy: o irmão  foi assassinado, no ano passado, em uma tentativa de assalto em Belo Horizonte.
Mesmo tendo sido vítima da violência que assola o país, Maha almeja a nacionalidade brasileira. E é enrolada na nossa bandeira que ela comemora a carteira de habilitação recém-emitida e demonstra sua gratidão.

Gratidão por ter sido acolhida no país com os dois irmãos, quando todos os outros lhes fecharam as portas. Gratidão por ter a oportunidade de começar uma vida com o mínimo de direitos reconhecidos, assegurados. Gratidão por finalmente, ter documentos e poder existir legalmente.  Gratidão pela generosidade da família mineira que, sem conhecê-la, a recebeu, quando aqui chegou sem falar uma palavra de português,

Campanha da ONU busca acabar com a apatridia até 2024
É essa generosidade que ela retribui e multiplica, através do seu ativismo na campanha #IBelong das Nações Unidas, em prol do fim da apatridia no mundo. Compartilhando sua história e a de sua família em diversos fóruns, Maha faz o seu melhor para ajudar as cerca de dez milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, que hoje vivem como apátridas.

Sua generosidade me emociona. Me faz refletir sobre como a condição legal de pertencer a algum lugar define nossa própria identidade – afinal, onde nasceu esse sorriso cativante da Maha? Na Síria, no Líbano ou no Brasil?  Me leva a tentar imaginar como seria existir nessa espécie de vácuo de não-nacionalidade; eu, que, por descender de pais portugueses, tenho o privilégio de ter direito a duas: a brasileira e a lusa.

Tudo isso também me faz pensar e lamentar como tantas pessoas, aqui nascidas e com sua nacionalidade reconhecida, dela não podem usufruir. São cidadãos que crescem apartados da própria cidadania, sem acesso a direitos civis básicos, como: saneamento, saúde, educação. São brasileiros com os quais ainda precisamos compartilhar a possibilidade de uma vida decente. Brasileiros que precisam ser abraçados e acolhidos, para que essa pátria Brasil também possa lhes pertencer.

Compartilhar, abraçar, acolher. Volto aos três verbos do início desse post, porque eles pontuaram toda a reflexao que a história de Maha Mamo provocou. Porque, se eles fossem mais conjugados, não existiriam cerca de dez milhões de Mahas no mundo. Porque sintetizam o exercício que precisamos praticar no Brasil, para reverter a geração de apátridas sociais que estamos criando.
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To share, embrace and welcome. These three verbs may be seen as out of the blue in a year that has not completed sixty days yet, but can be already defined as intolerant, violent and conflagrated. They are so far away from the facts that have been ultimately driving the country and the world that, browsing around the news last Wednesday, I got stuck at an Ophrah alike show, because of Maha Mamo’s interview.

Maha Mamo
Maha is stateless. She is 28 years old, was born in Lebanon, but never got the country citizenship due to the fact her parents’ inter religion marriage is considered illegal both in Lebanon and in Syria, from where they are. So, she, her sister, Souad, and her brother, Eddy, grew up without a nationality, what means without civil rights. A life the three of them wanted to transform in a real existence.

In 2014, Maha summarized their history in a short story and sent letters to all embassies in Beirut. Brazil was the only country that opened the doors to them and months later issued them a stateless refugee visa. A condition that gives them the same rights country residents have. A certificate that states they exist, regardless of having a nationality or not.  In the case of Eddy, not any more: he was murdered, last year, during an assault attempt in Belo Horizonte (capital of Minas Gerais state).

Even having suffered the consequences of the violence that nowadays is spread all over the country, Maha dreams of the Brazilian nationality. And it is wrapped in our flag that she celebrates her brand new issued driving license and demonstrates her gratitude.

The gratitude for being welcome here, when all the other countries closed their doors. The gratitude for the opportunity to start a new life. The gratitude for existing legally. The gratitude for the generosity of the family which hosted her, even without knowing her previously.

It is this generosity she reattributes and multiplies through her activism in the #IBelong United Nations campaign against statelessness in the world. Sharing her story in diverse fora, Maha does her best to help the ten million stateless people spread all over the world.

Her generosity touches me.  It makes me think on how the legal condition of belonging to somewhere defines our identity – after all, where Maha’s captivating smile was born? In Syria, in Lebanon, or in Brazil? It makes me try to imagine how it would be to exist in this kind of non-nationality vacuum, when I have the privilege of being Brazilian and Portuguese.

All of that also makes me feel sorry for the people who are born here, have the Brazilian nationality, but cannot count on it. They are citizens who grow up apartheid of their own citizenship, without access to basic civil rights, such as: health and education.  They are Brazilians with whom we still need to share the possibility of a decent life. They are Brazilians who need to be embraced and welcome to feel this country belongs to them too.

To share, embrace and welcome. I turn back to the three verbs that opened this post, because they permeated all the impact Maha Mamo’s story caused on me. Because, if they were conjugated more often, probably, there would be less Mahas in the world. Because they summarize the exercise we need to practice in Brazil to revert the social stateless generation we have been creating.
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