Quem sou eu

sábado, 29 de outubro de 2016

Aos 47 do Segundo Tempo / A los 47 del Segundo Tiempo / Late, But Still in Time

"Oi, prazer, o meu nome é Joice, tenho 45 anos e quero ter um filho”.

A forma nada convencional da minha amiga, atriz, diretora e professora de teatro, Joice Niskier, se apresentar a quem é hoje seu marido, Javier Pared, e pai do seu filho de dois anos e meio, David,  pode não ter acontecido exatamente assim, mas traduz a objetividade com que lidamos com o que somos e desejamos a partir dos ‘enta’ .  

Joice, David e Javier - foto de Luiz & Luiza Fotografia
Aos 45 e sua inerente consciência de que a idade pode ser uma barreira para despertar o interesse no sexo oposto – homens em geral preferem mulheres mais jovens –, e de que não há mais tempo para disperdiçar, Joice não pestanejou, ao anexar sua idade ao nome, quase como um sobrenome, quando, no primeiro encontro, durante o encerramento de um retiro espiritual no Uruguai (*), se apresentou ao hoje marido. Assim, como, dias depois, não titubeou em compartilhar com ele, na primeira troca de e-mails, seu desejo de ser mãe (eles viviam em países diferentes e durante meses se relacionaram à distância).

Desejo de ser mãe aos 45 anos (!) Desejo que, se não pudesse materializar por meios naturais, poderia  tornar real através da reprodução in vitro. Porém, desde que existisse um pai. Um pai presente, amoroso, disposto e disponível para o/a filho(a), independente de constituir com ela, Joice, um núcleo familiar.

“Eu sei, pela minha experiência de filha, o que é ter um pai forte, presente, amoroso e participante. Por isso, não conseguia pensar na possibilidade de ter um filho (a) sem dar isso a ele(a)” – conta ela, refletindo sobre os motivos por que a produção independente lhe parecia impossível, por mais que admirasse/admire e apoiásse/ apóie as mulheres que buscam a materninade como mães-solteiras.

Mas voltando ao primeiro encontro e às primeiras conversas de Joice e Javier. A abordagem sem  ‘mi-mi-mis’ , que ela adotou, assumindo de cara o que considerava como vulnerabilidade – ser uma mulher de 45 anos -- para ele, soou como senha, password,  para a possibilidade de voltar a compartilhar a vida com alguém. Poder ter uma companheira,  depois de um casamento desfeito, que gerou quatro filhos dos quais ele não abria mão de estar perto,  e de uma relação estável, porém, instável, com um parceira quase quinze anos mais jovem. Aos 41 anos, ele já tinha se convencido: queria uma mulher mais madura – uma mulher de 45 anos.

E foi dessa conjunção de desejos, temores, sonhos, afetos, urgências, e, por que não,  astros, que nasceu o amor. O amor que concebeu David. Que o concebeu, milagrosamente (?), sem o uso de tubos de ensaio, em parto natural,  sem qualquer síndrome, graças a Deus (ou aos deuses!) e amamentado exclusivamente no peito até os seis meses, por essa mãe que, então, tinha 47 anos. David, nascido com 3Kg300gr e 48 centímetros, em abril de 2014, e embalado desde sempre por pai e mãe. David, nome que em hebraico significa amado, querido, e que, independente de religiões, é
Joice à espera de David
dono da estrela de seis pontas, que deveríamos seguir para não nos perdermos de nós mesmos, porque a junção de dois triângulos neutraliza maniqueísmos: encontra o ponto de equilíbrio entre o bem e o mal;  acha o fiel da balança entre o que é físico e o que é espíritual.

David, esse menino de dois anos e meio, que gosta de regar plantas, andar de avião e  cresce bilíngue, por conta de ter pai argentino – seria estrela ou estrella, aquela que pertence ao seu homônimo na história de Israel? –;  que conta com a paciência de pais maduros  e que confirma, a cada dia, a vocação para a maternidade que sua mãe descobriu, ainda na infância, quando, aos oito anos, dedicou suas férias aos cuidados com um dos gêmeos recém-nascidos, filho da caseira da casa de veraneio.  

“A lembrança daquele primeiro encantamento me acompanhou a vida toda” – diz Joice.

Encantamento que a alimentou e fortaleceu na busca de um pai para o/a filho(a) que, sabia, um dia teria. Emoção mágica que transborda através das histórias de antes e depois de David, que a uniu a Javier, apesar do que, à primeira vista, poderia ser lido como impossibilidade.  Histórias de mil e muitas noites – e também de centenas de milhares de dias, nem sempre fáceis, que antecederam  esse encontro e que foram compartilhadas, por ambas as partes, com muitos queridos amigos.

Momentos que, no que toca a parte da Joice, nos fizeram cúmplices durante muito tempo e que possibilitaram o nosso reencontro, mesmo com as distâncias que a vida impôs. O reencontro que permitiu que voltássemos a trabalhar juntas, que retomássemos nossas conversas como se as tivéssemos interrompido no dia anterior e que me impulsiona a celebrá-lo, contando, hoje, essa história de maternidade tardia, mas desejada a vida inteira. Eu, que nunca senti vontade de ter filhos, que nunca fui chegada a crianças, mas que me sinto cativada por essa narrativa pontuada por tanto afeto e por esse menino, David, ainda que só o conheça por fotografias e pelos relatos amorosos de sua mãe.

Sei que muitos dos meus amigos, ao lerem este post, pensarão consigo: ‘Talvez seja por isso; trata-se de um afeto remoto”

Eles me conhecem bem, há muito tempo e, provavelmente, tem razão. Porém, a própria história da Joice e do Javi ensina que o que começa como um relacionamento à distância pode, sim, crescer, se fortalecer, enraizar-se e frutificar.
Então, David, acredite: a condição de remoto não torna meu afeto menos sincero. Fica aqui, registrado neste post, com o beijo da sua tia Vera.

(*) Website do retiro no Uruguai: www.isha.com
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“Hola, que tal?, me llamo Joice, tengo 45 años y quiero tener un hijo”.

La manera poco convencional que mi amiga, actriz, directora y maestra de teatro, Joice Niskier, hizo su introducción a quien hoy es su pareja, Javier Pared, y padre de su hijo, que tiene dos años y seis meses, David, puede no haber pasado exactamente asi, pero traduce la objectividad con la cual manejamos lo que somos y deseamos después de los ‘enta’.

A los 45, con la consciencia de que la edad puede ser un obstaculo para despertar el interes del sexo opuesto – en general, hombres prefieren mujeres más jóvenes --, y de que tenemos que ahorrar tiempo, Joice no dudó en anexar la edad a su nombre, casi como se fuera su apellido, cuando hizo su introducción a quien hoy es su marido, durante el cierre de un retiro espiritual, en Uruguay *.  Asi como, algunos dias más tarde, ella tampoco dudó en compartir con él su voluntad de tener un bebe, en su primer cambio de e-mails (ellos vivian en paises distintos y durante muchos meses tuviron un relacionamento remoto).

La voluntad de tener un bebe a los 45 años(!) ,voluntad qui si ella no pudiera tornar realidad por los medios naturales, podria hacerlo través de la reproducción in vitro. Siempre que hubiera un padre. Un padre presente, amoroso, dispuesto y disponible para su hijo. Independientemente de formar una familia con ella, Joice.

“Yo sé, por mi experiencia de hija, lo que és tener un padre fuerte, presente,  amoroso y participante. Por eso, yo no lograba pensar en tener un hijo(a) sin darle lo mismo”—ella cuenta, justificando  por que no podria enfrentar una ‘producción independiente’, por * más que admire y apoye las mujeres que hacen esta opción.

Volviendo a las primeras conversaciones de Joice y Javier. La manera directa como ella presentó lo que pensaba ser su grande vulnerabilidad – ser una mujer de 45 años – para él sonó como una contraseña, un password, para la posibilidad de volver a compartir la vida con álguien. La posibilidad de tener una compañera, despues de terminar un matrimonio, que generara cuatro niños de los cuales no queria separarse, y de un relacionamiento estable y a la vez inestable, con una pareja casi quince años más joven. A los 41 años, Javi ya estava convencido: queria una mujer más madura —una mujer de 45 años.

Padre presente, amoroso, dispuesto y disponible
Y fue de esa conjunción de deseos, temores, sueños, afectos, urgencias y astros (por que no?) que nació el amor. El amor que generó a * David. Que lo generó milagrosamente (?), sin procesos de fertilización, en un parto natural, sin ninguna enfermedad, gracias a Diós (o a los dioses!) y hasta los seis meses exclusivamente amamantado por esta madre que, en la ocasión, cumplia 47 años.  David, nacido con 3,300 kilos y 48 centimetros, en abril de 2014 y abrazado desde siempre por su padre y su madre. David, nombre que en hebraico significa querido, amado, y que, independientemente de la religión, es el dueño de la estrella de seis puntas, que habremos de seguir para no  perdernos de nosotros mismos, porque la unión de los dós triangulos neutraliza los maniqueismos: encuentra el punto de equilibrio entre el bien y el mal; entre lo que es fisico y lo que es espiritual.

David, este niño que cumple dos años y seis meses, a quien le gusta regar plantas y viajar en avión, que crece bilingue por tener padre argentino -seria estrela o estrella aquella que pertenece a su homonimo en la historia de Israel? --, que cuenta con la paciencia de padre y madre maduros y que todos los dias confirma la vocación para la maternidad que su mamá descubrió aún en la infancia, cuando a los ocho años, pasó sus vacaciones cuidando de uno de los bebes de la casera de su casa de veraneo.

‘El recuerdo del aquél encantamiento siguió conmigo por toda mi vida”.

Encantamiento que la alimentó y fortaleció en la búsqueda de un padre para el hijo/ la hija que, sabia, un dia tendria. La emoción magica que transborda de las historias desde antes y después de David, que la unió a Javier, a pesar de lo que, a la primera vista, podria ser leido como una imposibilidad. Historias de mil y muchas noches – y también de centenas y miles de dias, ni siempre faciles, que antecedieron su encuentro y que fueron compartidas, por las dos partes, con muchos amigos.

Momentos que, en lo que toca a Joice, nos hicieron cómplices durante muchisimo tiempo y que posibilitaron nuestro reencuentro, independiente de las distancias impuestas por la vida. El reencuentro que permitió que volvieramos a trabajar juntas, que retomaramos nuestras conversaciones desde el punto en que las dejamos y que me motiva a celebrarlo, contando hoy esta historia de maternidad tardia, pero deseada por toda la vida. Yo, que nunca quise tener hijos, que no me gustan mucho los niños, pero que fui cautivada por esta narrativa y por este chico, David, auúnque solamente lo conozca por fotos y por las historias amorosas que su mamá cuenta.

Yo sé que muchos de mis amigos, cuando lean este post, pensarán: “A Vera le gusta este niño porque esta lejos. Se trata de un afecto a distancia”.

Bueno,… Ellos me conocen bien y hace mucho tiempo; probablemente tienen razón. Pero la propia historia de Joice y Javi prueba que lo que empieza como un relacionamiento a distancia puede, si, crecer, fortalecerse, enraizarse y frutificar.
Entonces, David, creéme: la condición de a distancia no hace mi afecto menos sincero. Lo dejo registrado aqui, en este post, con un beso de tu tia Vera.

(*) Website del retiro en Uruguay: www.isha.com
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Se a ti te gustastes  este post,  por favor,  compartelo con tu red de relacionamiento,  haciendo un click en un de los botones que ustedes van a ver abajo de la traducción para el ingles
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“Hi, nice to meet you. My name is Joice , I am 45 years old and want to have a baby”.

The non-conventional way my friend, the actress, theatre director and professor, Joice Niskier, used to introduce herself to Javier Pared,  the guy she married afterwards and had a child with -- Davjd, two years old and a half – may have not happened exactly like this, but expresses the objective way we handle whom we are and what we wish after the forties.

So,  Joice did not think twice in attaching her age to her name, when she first met Javi, in the closing session of a spiritual spa in Uruguay (*). She was aware that being 45 could be a roadblock, since men usually prefer younger women, and she knew she did not have time to waste.  That was also the reason why she did not blink in sharing her wish of having a baby, when they first exchanged e-mails (they lived in different countries and had a remote relationship during many months).

At 45 she wished to be a mom (!). A wish that if she could not make happen through natural means, she could make real with the help of in vitro reproduction. But she needed a father for the child. A present and loving father who not necessarily needed to form a family with her, Joice.

“From my experience as a daughter, I have ever known what is to have a strong, loving and available daddy. Therefore, I could not consider having a child without giving it to her/him “—she says, explaining why being a single-mother was not an option, although she supports and admires women who makes that choice.

The maternity gift lived every day
Back to Joice and Javier’s first meeting and conversations. The direct approach she took, telling him in advance what she considered a vulnerable aspect – being a woman of 45 – sounded to him as a sign. A kind of password to make him consider the possibility of sharing his life with someone again. The chance to have a partner, after ending a marriage who gave him four children  he wanted to keep close and after an unsuccessful experience with a woman fifteen years younger than him. In his mind -- Javi, at the time with 41 --  he needed someone more mature: a 45 year-old woman.

Their relationship started from the combination of these wishes, fears, dreams, urgencies, affections and, why not, stars conjunction. It quickly got strong and became love. The love that conceived David through a natural conception,  delivered him through natural childbirth without any syndrome, for God’s sake ! (or would those be goddesses?) and breast-fed  by his mother, who, at the time, was 47. David,  who was born with 3.3 Kilograms and 48 cm, in April 2014, and has been lullabied by his parents., since his very first second. David, the name that in Hebraic means wished, loved,  and that regardless  of any religion is the six-point star owner. The star we all should follow to keep close with whom we are, since the intersection of the two triangles brings the balance between what is good and what is bed; between what is material and what is spiritual.

David, who now is two years old and a half, enjoys watering plants and travelling by plane, who grows up bi-lingual, because his dad is Argentinean – should what is owned by his homonym in the history of Israel be called star or estrella? -- , who counts on his mature parents ‘patience and every day confirms his mom’s vocation to be a mother. A gift she discovered when she was eight years old and spent her vacations taking care of one of the kids of her summer house housekeeper.

“The memory of that first delight stayed with me my whole life”—Joice says.

The enchantment that fed and strengthened her while she looked for the father of the child she knew she would have one day. The magic emotion that emanates from the stories that happened before and after David. The feeling that brought her and Javi together, although at first sigh, as a couple,  they could be seen as an impossibility. One thousand and many night and day stories – some not easy – that happened before they met and were shared by both of them with their dear friends.

From Joice’s side, many of those moments made us ‘partners in crime’ for many years and were the foundation of what allowed us to hang out again after a while without news from each other. The foundation that allowed us to work together again and restarted our conversations from the point where it had stopped, as the break had never happened. The foundation that makes me celebrate our friendship today, telling this story of late and whole life desired maternity.  Me, who have never wanted to have kids, who have never been very fond of children,  but feel charmed by this loving narrative and  boy, David, even though I have never met him,; I only know him from the pictures and  stories shared by his mother.

I know that many  of my friends will think when they read this post: “Maybe that’s the reason: it is a remote affection”.

They have known me well and for a long time now. So, they probably are right. However Joice and Javi’s story tell us that what starts as a remote relationship can grow, get strong, create roots and, yes, fructifies.
So, David, believe me: its remote condition does not make my affection less sincere. I want to make it clear here, with this post and with a kiss from your aunt Vera.

(*) Website of the spiritual spa in Uruguay: www.isha.com





sábado, 22 de outubro de 2016

E Quem Nunca?!... / And Who Never?!...

Nos tempos em que o risco de ser politicamente incorreto se traduz em linchamento -- físico e/ou moral --,  fico me perguntando quando, como, onde e por que rezar por uma só cartilha tornou-se obrigatório. Quando, como, onde e por que essa cartilha tornou-se a única voz para defender diversidades.  Quando, como, onde e por que qualquer livro, escrito em outro idioma,  passou a ser sinônimo de desconfiança – mesmo quando, através de diferentes vertentes,  busca o mesmo objetivo:  acolher o que está à margem.

Sei que o simples fato de formular a pergunta dessa forma me coloca em terreno movediço e que minha natural simpatia pela pluralidade de linguagens muitas vezes inspira desconfianças. Nada posso fazer a respeito, a não ser provocar quem me olha enviesado e a mim mesmo, porque há momentos, tenho que reconhecer, em que também radicalizo.
Assim, pergunto: E quem nunca?...

Quem nunca se lambuzou, depois de comer melado pela primeira vez?

Quem nunca morreu de medo, depois de beber leite e comer manga?

Quem nunca despiu um santo, para vestir o outro?

Quem nunca atirou pedras, quando morava sob telhado de vidro?

Quem nunca se deslumbrou com a mosca azul?

Quem nunca remediou o que não tem remédio?

Quem nunca se rebelou, ainda que não tivesse causa?

Quem nunca chafurdou em culpa, depois de brigar (com ou sem razão) com o melhor amigo ?

Quem nunca sentiu inveja (ainda que branca) do melhor amigo?

Quem nunca sentiu ciúme do melhor amigo?

Quem nunca se omitiu (e depois se envergonhou) em defender o melhor amigo?

Quem nunca  riu de uma piada leviana sobre judeus, gays, gordos, negros, portugueses, muçulmanos, brochas, cornos e bêbados?  Ainda que não tivesse nada contra judeus, gays, gordos, negros, portugueses, muçulmanos, brochas, cornos e bêbados?

Quem nunca?!

Eu… Senão sempre,  senão quase,… Seguramente, muitas vezes.  

Sim, em algum momento e de alguma forma, eu transgredi o que seria politicamente correto. Ultrapassei  mesmo o limite. Muitas vezes por convicção, em  outras por mera confusão,  em tantas me dando conta,  outras tantas não tendo noção – “sem loção”, como brincava a diarista, Fátima, que por vinte anos trabalhou na minha casa, e cujo sobrenome agora me falta, (sei que esse esquecimento não é politicamente correto), mas de quem sempre me lembro, falando em tom de premonição:

“Na vida, a gente joga pra ganhar e se joga sem nem notar; quando olha, já rolou precipício. Aí, é entregar a Deus pra não se ralar! “  

Sabedoria de quem escalou pirambeiras e comeu poeira, ao decidir deixar o Nordeste em busca de melhor sorte. Determinação de quem sozinha criou três filhos, “porque viuvez não marca hora, não senhora”.  Profunda sabedoria que, por duas décadas, pontuou momentos importantes; da minha vida e da vida dela. Meu primeiro emprego em redação. Sua decisão de, mesmo sendo diarista, trabalhar em uma só casa, a minha -- ”TPMs bastam duas!”  A compra do meu primeiro apartamento. A construção de mais dois quartos em sua laje. Minha mudança de profissão. Sua decisão de aprender um novo ofício:  corte e costura. A conclusão do meu MBA. A formatura dos seus filhos.  A adoção de Clementina, meu primeiro bichinho de estimação. Sua disposição para, além de mim e da casa, cuidar também da gata:

 “Agora, são três TPMs, mas pelo menos uma mia, ronrona e roça o pelo nas minhas pernas” – disparava entre risadas,.

Enfim,  por vinte anos, Fátima e eu nos acompanhamos em inúmeras situações.. Algumas em que  duvidávamos de nós mesmos, em outras em que não confiávamos no outro. Em muitas, em que desacreditamos de tudo e, depois, voltamos a acreditar, porque a vida sem fé perde a razão, ao contrário do que o ditado professa. 
Nunca nos julgamos.  Apenas seguimos nosso rumo, como ela gostava de dizer, quando se referia a fatos consumados; a caminhos que “tinham que ser, independente da gente saber”. Rumos que até aceitavam desvios, se aí morasse um aprendizado, mas que não toleravam atalhos.

“A vida já é curta demais pra gente cortar caminho”, ela, volta e meia, filosofava, referindo-se ao tempo, que só o tempo do tempo tem.

Eu me calava. Me recolhia à insignificância de quem nem sabe direito onde quer chegar, mas tem pressa  e por isso se embrenha sempre no trajeto que lhe parece mais rápido. “Apressado come cru”, diz o ditado.  Demorei um pouco a entender o que definia o meu percurso. Que não adiantava correr, porque sempre havia o tempo certo para chegar. Porque sempre fui aquela que, quando corre, tropeça, mal se reequilibra, cata-cavaco, tomba e se arranha, A que só aprende, depois de provar do pó do asfalto e/ou da terra, tanto faz. E só então se levanta, capenga e volta a caminhar com os joelhos esfolados. Segue o rumo. Aquele mesmo da filosofia da Fátima:  o que tinha que ser.

O que tinha que ser, não importa se eu já me lambuzei comendo melado;  se já morri de medo ao beber leite, depois de comer manga; se já despi um santo para vestir o outro; se já atirei pedras, mesmo tendo telhado de vidro; se já me deslumbrei com a mosca azul; se já remediei o que não tinha remédio; se já me rebelei apesar de não ter causa; se já me chafurdei em culpa, depois de brigar (com ou sem razão) com o melhor amigo; se já senti inveja (ainda que branca) do melhor amigo; se já  senti ciúme do melhor amigo; se já me omiti (e depois me envergonhei) em defender o melhor amigo.
E tampouco importa, se o melhor amigo era/é judeu, gay, gordo, negro, português, mulçulmano, brocha, corno ou bêbado. Porque amigo não julga, aceita. Aceita, acolhe e abraça, ponto.

Aceitar, acolher, abraçar. Aceitacolheabraça ponto com ponto br… Qual o melhor verbo-composto para transformar em link ou em hashtag?  Qual a melhor prática para aprender a conviver com o que é diverso, ainda que  ele seja o nosso oposto?  Qual o melhor exercício para aprender a perdoar a priori,  já que ninguém escapa das próprias limitações?  O saudoso poeta Tite de Lemos perguntava e, ao mesmo tempo,  respondia, em versos:

“Quem, diante de Deus, peca?”.

Eu, pobre em rimas e sem qualquer verve, apenas repito, meio à toa e muitas vezes ateia:

Afinal, quem nunca?!...
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When bullying becomes the natural consequence to whom takes the risk of being politically incorrect, I question myself when, where and why following the same guidebook has become mandatory.  When, where, and why it has become the only voice to advocate for diversity. When, where, and why any other book written in a different language has become a synonym of distrust – even when it embraces the same cause.

I know that asking the question in this fashion puts me on a hard place, as well as my sympathy for plurality many times does. There is nothing I can do about this, but provoke people who distrustfully look at me and challenge myself, since there are times – I should recognize -- I become as radical as those people are.
So,  I ask: who never?

Who has never robbed Peter to pay Paul?

Who has never shot its own foot?

Whom the blue fly has never bitten?

Who has never let it go because it was what it was?

Who has never performed the rebel without a cause?

Who has never felt guilty, after fighting (with a reason or not) the best friend?

Who has never envied the best friend?

Who has never felt jealous of a best friend?

Who has never neglected (and felt ashamed afterwords) defending a best friend?

Who has never laughed of a frivolous joke, about Jewishes, gays, Negros, Muslims, Portugueses, fat and drunk people? Even when not having anything against them?

Who never?

Me… If not always, I would say, almost always or, at least, many times.

Yeah… in some moments and in some way, I broke the rules of what was defined as politically correct. I really overcame those boundaries. Many times because I was so sure. In others, because I was totally confused. In some, I was aware of what was going on. In others,  I did not have a clue.  “No cue”, as Fatima, the cleaning lady who worked in my house for twenty years and whose last name I can not remember right now (this lack of memory is not politically correct, is it?), used to say. She said that, as a premonition, every time she thought someone was lost:

“In life, we throw our cards to win and many times that means throwing ourselves over the cliffs without noticing. When that happens, God is the only way out. The only way to survive without multiple scars”.

This was her wisdom. Something she built on the experience of leaving home in the Northeast of the country, when she was young, to pursue a better future and with the need of raising three children on her own. “Widowhood does not make an appointment; it simply happens, madam!”  The wisdom that highlighted important moments; on her life and on mine: my first job as a journalist in an important newsroom; her decision on working for only one house, mine – “Two PMSs are enough”; the purchase of my first apartment; her home two-bedroom expansion. my career change; her sewing lessons; my MBA.; her kids’ graduation; my first pet adoption – Clementine – and her availability to take care of the house, of me and the cat.

“Now, we have three PMSs, but at least one of them meows, purrs and grubs its fur on my legs”— she said between laughs.

After all, during twenty years, Fatima and I shared many situations. Some in which we doubted of ourselves. Others in which we could not trust anyone. In many we simply disbelieved everything, but quite after recovered our beliefs, because life without faith misses its own reason. Although the saying states the opposite.

Even being very different from each other, we never judged ourselves. We only “followed our way”, as she used to say every time she faced one of those ‘it is what it is’ situations:

“The paths as they had to be, regardless of what we knew about them”. Paths that could even accept deviations if that meant learning something, but that could not stand shortcuts.

“Life is too short to make it shorter”— she used to say philosophically.

I shut up. Even when I did not know where I wanted to go, I was always in a hurry; always ready to take a shortcut. It took me time to understand the patterns that defined my path; to realize I could run, but would be always that one who stumbles, double-trips, falls and gets wounded and, then, stands up and follows its own way. That very way defined by philosophical Fatima: the one as it should be.

The one as it should be, no matter if I have robbed Peter to pay Paul; if I have shot my own foot; if I have been bitten by the blue fly; if I have performed the rebel without a cause; if I have felt guilty, after fighting my best friend; if I have envied my best friend; If I have been jealous of my best friend; if I have neglected defending my best friend.
And it does not matter if the best friend was/is Jewish, Muslim, gay, Negro, Portuguese, fat or drunk. Because friends do not judge, they simply accept, welcome and embrace each other. And that’s it, period.

Acceptwelcomembrace.com  We should transform these words in links and hash tags to nurture the practice of getting along with diversity, even when that means living with the opposite of ourselves. Even when that means forgiving anything in advance, because we all have limitations. The Brazilian poet, Tite de Lemos, used to define this attitude with a question:

“Who sins before God?”

Without verses and rhymes, I accept my limitations and answer:


After all, who never?!...