Quem sou eu

sábado, 28 de janeiro de 2017

Soberana Saudade / Missing Tom Jobim (*)

"Passarim quis pousar, não deu, voou"...

Essa noite sonhei com Tom Jobim. Talvez porque, se estivesse vivo, ele teria completado noventa anos na última quarta-feira e a data tenha sido amplamente lembrada e celebrada.  Talvez porque um passarinho matreiro e impaciente tenha cantado, ainda de madrugada próximo a minha janela, e me despertado muito muito cedo; apesar de, aos sábados, eu gostar de dormir até mais tarde, levantei animada e feliz. Talvez porque, olhando o semblante do homem que dormia ao meu lado – meu marido, para que não fiquem dúvidas ou espaço para especulações – eu, silenciosa e pausadamente, recitasse os versos de  “eu sei que vou te amar, por toda a minha vida, eu vou te amar”… 

Talvez, por causa disso tudo, acordei cantando Jobim e transpirando saudade.

Tom Jobim
Saudade, sim.. Esse sentimento que só a nossa língua traduz em palavra com precisão. Talvez porque nossos ancestrais lusos precisassem dar voz às dores das ausências causadas pelas grandes navegações. Talvez porque  só a melodia dos fados não bastasse para embalar a solidão daqueles mares nunca dantes navegados. Era necessário expressá-la através de um substantivo que tivesse a força de um verbo. Um verbo a ser conjugado sempre no presente do indicativo, não importa quão remota fosse a carência de afeto, a falta de companhia para as noites.

Saudade, sim. Essa dor da ausência que tem-se prazer em sentir. Ausência dos amores que se tornaram finitos, dos amigos que já partiram,  dos momentos comemorados com euforia, dos sorrisos guardados em fotografias. Ausência dos segredos partilhados na surdina, dos poemas decorados e nunca declamados, das madrugadas insones, sonhando acordada, das pequenas e bobas alegrias. Ausência de mim, num tempo que não é mais aqui; ausência de ti, num lugar que não é agora; ausência de Tom Jobim, que tudo isso celebrava em canções.     

Canções inspiradas nas fontes murmurantes de Ari Barroso, nas florestas desbravadas  por Villa Lobos e em clássicos que, sem preconceito, se misturam à bossa, ao samba, ao jazz. Canções onde passarinhos sapecas saltitam,  rios desaguam em praias, ventos antecipam tempestades e as águas de janeiro, fevereiro e março transbordam verões.
Tom e Edu Lobo, foto produzida para disco juntos
Canções que, numa tarde longínqua dos anos oitenta, em sua casa do alto da rua Corcovado (*), ele, o próprio Tom, tocou pra mim, enquanto esperávamos a chegada de Edu Lobo para a entrevista sobre o disco que tinham terminado de gravar juntos. Tocou para quebrar o gelo, ao perceber que a jovem reporter, que eu era na época, estava intimidada diante do grande maestro. Tão intimidada e nervosa, que entrei na casa tropeçando, dando cotoveladas nas estantes e mal conseguindo dizer boa tarde. Tom tocou generosamente, enquanto seu filho mais novo, então um garotinho, brincava no pequeno pátio anexo ao estúdio e o sol, filtrado pelos arbustos do jardim, iluminava o piano de cauda. Tocou até Edu chegar e o resgatar do recital particular.     

“Esse piano tocado pelo Tom é uma orquestra!” – Comentou, ele, Edu, sem esconder sua admiração pelo amigo e parceiro.

Eu, vencendo a timidez inicial e visivelmente emocionada, retruquei com um “ muito obrigada, maestro”, dirigido a Tom,  antes de pegar meu bloquinho, caneta, e gravador para começar a entrevista (sim, senhores:  repórteres usavam bloquinho e gravador!). Tom sorriu, fez uma semi reverência, como se estivesse diante de uma grande plateia, e voltando à banqueta do piano, deu um gole no uísque que ali estivera todo o tempo, para responder a minha primeira pergunta que já nem lembro mais qual foi. Só me recordo do alívio agradecido por, finalmente conseguir articular um pensamento inteligente diante do meu ídolo e maestro preferido. O maestro que já era soberano, muito antes de Chico Buarque tê-lo denominado assim.

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Little bird on a tree you better fly.” (**)

Tom Jobim was on my dreams last night. Maybe because he would have turned ninety if he was alive and the date were broadly celebrated last Wednesday. Maybe because I was waken up very early by a little bird singing at my window. Maybe because staring at the man who was sleeping beside me (by the way, he is my husband), I whispered the lyrics “I know that I will love you, for all my life, I will love you”… (***)

Maybe because of all of that, I woke up this morning singing and missing Jobim.

Yes, living the feeling that only Portuguese precisely translates in a word: saudade. A substantive that brings the force of a verb. A verb to be always conjugated on the present tense. A word that expresses the emotional pain we feel when we miss something or someone, such as: old ended loves, passed away friends, celebrated moments, framed frozen smiles, silently shared secrets, memorized but never recited poems, awaken dawns, fool and little joys. The absences of who we were at some point in time. The absence of Tom Jobim, who celebrated all those feelings with music.

Songs he created inspired by Ari Barroso (****) and Villa Lobos (*****). Classical he mixed with bossa, samba and jazz – there were no boundaries for him. Songs that bring live the sensation of watching a little bird sing, of swimming on rivers that end on beaches and of bathing on summer storms. Songs that in the early eighties I had the privilege to listen to played by Tom Jobim, himself, at his place, while we waited for the composer Edu Lobo, with whom he had recorded a vinyl. At the time, I worked as a reporter and was there to interview both o them to write a story about the album.

Noticing I was so young and so intimidated by his presence, Tom started playing to break the ice. And kept playing, while his youngest son, a little boy at the time, played with his toys at the patio next door and the sunset reflected at his big black piano. And played uninterruptedly till the moment Edu Lobo showed up to rescue him from that private recital.

“Played by Tom, this piano is an orchestra”, said Edu, without disguising the admiration he felt for his partner.

Overcoming my initial shyness and visibly moved, I tuned to Tom and mumbled a “thank you very much, Maestro”, before I picked up my tab, pen and tape recorder to begin the interview (Yeah, folks: reporters used tabs and tape recorders!). Tom smiled, made a greeting gesture as if he was on stage before a big audience, and sit down back at the piano’s bench to start answering my questions.
Yes, at last, I could articulate something intelligent before my idol and favorite maestro.
(*) Tom Jobim – Antonio Carlos Jobim, Brazilian musician and composer; considered as one of the fathers of Bossa Nova. The author of ‘The Girl from Ipanema’ in partnership with Vinicius de Moraes.
(**) Lyrics of ‘Passarim’, one of Tom Jobim’s songs.
(***) Lyrics of ‘I know that I will love you’, one of Tom Jobim’s songs
(****) Ari Barroso, Brazilian composer.
(*****) Villa Lobos, Brazilian musician, conductor and musician.

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sábado, 21 de janeiro de 2017

Entre P.Ss., cáspites e oxalás / Among P.Ss. and wows

O P.S. sobre a recuperação de uma gripe forte, usado pelo meu amigo Gustavo Trestini no primeiro e-mail que me enviou este ano, me levou a responder  sua mensagem eletrônica com dois P.Ss. -- um deles questionando quantas pessoas com menos de quarenta anos saberiam o que significa  post script , o outro especculando quantas, mesmo depois dos cinquenta, ainda o usariam na sua comunicação – além de nós dois, claro!

Risadas virtuais à parte, o P.S. me fez pensar sobre como cada geração se apropria da língua falada, a rejuvenesce, aquece e transforma para, depois de muita saliva gasta, dar nova forma à chamada linguagem ‘culta’ – aquela que é regida por normas, é geralmente escrita e que sempre prima pela formalidade. E, talvez por isso, denuncie a idade, a caretice,  de quem a formula e articula.

Cáspite! = Caramba! = Cacete! = Cara...!

O que torna uma expressão exclamatória palavrão?  A ênfase da exclamação ou a ausência de palavra que expresse, traduza e materialize a intensidade de uma emoção? Longe de mim, aqui, defender o uso de linguagem de baixo calão. Linguistas e filólogos certamente podem responder pelo viés científico, eu, simples ‘usuária’ da língua, para me entender, explicar e existir, apenas flagro e registro em memórias algumas  dessas transformações.

Lembro, por exemplo, da primeira vez que ouvi a palavra afrescada – que hoje só encontro no Aurélio como afrescar, verbo-sinônimo de refrescar – e corri para buscar o tal casaquinho que minha mãe tanto recomendava para me proteger de gripes, nas tardes da minha infância petropolitana. Foi assim que entendi por que era preciso estar agasalhada. Só bem mais tarde, e não por circunstâncias particulares, compreendi as dores de quem permanesce continuadamente desprotegido, descuidado. 

Não esqueço quando descobri a qualidade de ser pusilâmine, numa leitura ginasiana de ‘Os Sertões’, de Euclídes da Cunha, e desde então me vi empenhada em não me tornar o que o vocábulo, que nunca usei falando ou escrevendo, significava: fraca, medrosa, covarde. Talvez meu empenho nem sempre tenha me livrado das qualidades tão temidas, mas hoje sei:  quem foi vítima da minha pusilaminidade já me perdoou; e o abraço do perdão vale mais que qualquer adjetivo.

Também me recordo do encontro com termos como: mentecapta, mequetrefe, malfadada. Eles eram tudo o que eu não queria ser: doida, bisbilhoteira e azarada. Acho que escapei da falta de sorte e da insanidade. Há controvérsias sobre a bisbilhotice, na medida que escolhi o jornalismo como primeira profissão e a carreira que segui depois sempre foi pautada por formular perguntas.

Quem? O que? Como? Quando?  Onde? E por que? 

Se as respostas a essas seis interrogações são a matéria prima básica para fazer qualquer reportagem, a habilidade de formulá-las, repetida e consistentemente, é ferramenta para a vida; para se descobrir permanente e renovadamente vivo. Não importa a idade, a raça, a crença, o gênero, o credo. Não importa a língua, a linguagem,  a gíria, o dialeto. Não importa se bonito virou bacana, se bacana virou legal, se legal virou um barato,  se um barato virou irado e se, dependendo da hora, do local e da tribo, tudo volta a ser bacana novamente. O que importa é ser e estar presente.

P.S. Oxalá, tudo logo volte a ser bacana novamente.

P.S2.Tomara, que, logo logo, tudo volte a ser bacana novamente.

P.S3. Demorô pra tudo voltar a ser bacana novamente.

P.S4. Qual é mesmo o significado de bacana?!

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My friend Gustavo Trestini’s P.S. on the first email he sent me this year generated two P.Ss. on my response to him. The first one asked if people below their forties would know what P.S. means; the other questioned if even the ones who were above fifty years old were still using it on their messages. Of course we would not consider ourselves among the latter group.

Regardless of our virtual laughs, the P.S. situation made me think about how each generation appropriates itself of their spoken language to reinvent what we know as the formal language.

Dear non-Portuguese speakers readers, I apologize for interrupting the translation at this point. I have to do that, as most of the text uses Portuguese slang I am not able to translate to English and approaches Portuguese evolution and transformation I am not able to find equivalent in English. Regardless of this fault, I hope you keep following my next posts. 
Thanks and Regards, Vera 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Quase um centenário / Almost a centennial

Noventa e nove anos! Essa semana meu pai completou noventa e nove anos de vida. Com um grupo pequeno de amigos, ‘abrimos os trabalhos’ para a celebração do centenário em 2018. ‘Parabéns pra você, nesta data querida, muitas feeeeelicidades, muitos…’  Antes que o coro terminasse a musiquinha  para que apagássemos as velinhas, ele coxixou no meu ouvido “felicidades, sim;  já muitos anos de vida, eu não sei não… Estou começando a ficar cansado…”

Meu pai, minha mãe, meu marido e eu
A confidência em meio à comemoração me causou sobressaltos. Por mais que, racionalmente, eu saiba que completar quase dez décadas de vida está longe de ser trivial, emocionalmente, não é fácil deparar com as evidências de que, a passagem do tempo pesa e, no caso do meu pai, há um ano, o vem privando de coisas de que ele gostava muito, como: caminhar três quilômetros, diariamente, para disputar a rodada de porrinha com os companheiros de pracinha – quem perde, paga o café. Como me acostumei a vê-lo atravessar galhardamente todos os ‘enta’,  sempre animado, fazendo planos, pelo menos, para uma potencial próxima viagem a Portugal, escutá-lo dizer que está começando a ficar cansado, -- e ele disse estar só começando -- de certa forma, materializa a proximidade com o destino do qual nem eu, nem ele,  nenhum de nós escapará.

Meu pai e minha mãe
Mesmo sabendo que determinar o quão próximo estamos desse destino pertence ao imponderável, não consegui  (e não consigo) evitar a revoada de borboletas no estômago, ao pensar tudo isso, junto e misturado, enquanto cantávamos o parabéns. Não estou preparada para a orfandade, por mais que hoje eu seja mais mãe que filha e tome muito mais conta dos meus pais do que eles de mim. Na verdade, ainda não me acostumei com a finitude da vida e, por isso, tantas vezes ainda desperdiço tempo com coisas a que não deveria dar importância. Sei que já abordei os dois temas em posts anteriores, ressaltando sempre a necessidade de viver o aqui e o agora, e por isso já vou pedindo desculpas a vocês, leitores, por tamanha redundância. É que, às vezes, para a gente acreditar mesmo em uma ideia, precisa transformá-la em mantra e repeti-la, repeti-la, repeti-la até a exaustão, para que deixe o território da razão e se incorpore ao da emoção – aquele onde as mariposas fazem rasantes.

(Da esq. p/a dir) O amigo, João Pomarico, eu, papai e mamãe
Enquanto viver cem por cento no presente ainda não é realidade, vou toureando os sustos e aproveitando os bons momentos do jeito que posso. No caso dos noventa anos do meu pai,  deixo que as imagens falem por mim (confiram o vídeo em @facebook/veradias311). Até porque todas as palavras não são suficientes para descrever  a expressão de alegria que tomou conta do seu rosto, ao receber a homenagem dos amigos. Parecia um menino. Um menino que, ok, começa a ficar cansado, "mas só para encarar mais dez anos de vida", como depois esclareceu, quando lhe perguntei por que não queria votos de mais muitos anos de vida. O menino que, ao perceber a aflição da minha pergunta, tratou logo de prometer que fará a sua parte para chegar aos cem anos.  Menos sobressaltada, como um pedaço de bolo e guardo as palavras para a comemoração do centenário, em 2018.

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Ninety-nine years! This week my father turned ninety-nine. With a small group of friends, we started celebrating what will be a centennial in 2018. ‘Happy birthday to you, happy birthday to you, happy birthday dear Gomes…’ Before we finished singing to blow the candles, he whispered in my ear: “wish me luck and happiness, but not many years ahead – I am getting tired…”

This feeling shared in the middle of the celebration made me fright. If on one hand, I rationally know that turning ninety nine is far away of being something usual, on the other, it is not easy to realize that aging has its weight and, in my father’s case, for the last year, it has been obliging him to give up of things he loved to do, such as: walk four miles daily to meet friends and play cards at the downtown square – the loser pays for the coffee. As I got used to see him enthusiastically turning the seventies, eighties and nineties, always making plans for the next potential trip to Portugal, it is hard to hear him saying he is getting tired. It is a way of making the destiny from which none of us will escape close.

Even being aware that we will never know how close this destiny is, I could not (and can not) avoid feeling butterflies in my stomach, when I thought about all of that, while singing happy birthday to my father. I am not prepared to become an orphan, although nowadays I play more as his mother than as his daughter. In fact, I have not got used yet with the idea that life has an end, so, many times I waste time with unimportant things. I know I have approached these subjects in previous posts, always emphasizing the importance of living in the present, and therefore I present my apologies to you, readers. Sometimes you need a mantra redundancy to make something real.

While I keep trying, I move forward seizing the good moments as I can. In the case of my father’s ninety ninth anniversary, I let the images speak for me (please, check the video on @facebook/veradias311). I am saving the words for centennial celebrations in 2018.

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sábado, 7 de janeiro de 2017

Sobre 'vó Vera' e outros sustos / About 'grandma Vera' and other frights

Gosto dos dias nublados. Gosto do grizé nas nuvens e do meu coração inflado pela névoa filtrada da quase-chuva. Nesse verão de temperaturas quase africanas, mesmo para quem mora em São Paulo,  esses dias cinzentos, de brisas amenas, são hiatos bem-vindos e desejados na fornalha que nos rouba a possibilidade de vida inteligente fora do ar condicionado. Aproveito a trégua trazida por um deles, para caminhar pelo centro velho desta capital que, por motivos profissionais, adotei como minha cidade há doze anos.

Entrada da Galeria do Rock
…Praça da Sé, Largo de São Francisco, Rua São Bento, Viaduto do Chá, Anhangabaú, Teatro Municipal… Percorro esse trajeto sem consultar os mapas que expatriados, mesmo os de longa data como eu, sempre precisam ter à mão. Perambulo pelas ruas de fachadas pichadas por celacantos que não provocam mais maremotos (*) e vou perguntando aos ambulantes instalados no caminho: ‘por favor, onde fica a …”  Por isso, claro, faço algumas baldeações desnecessárias.

Meu destino é a velha Galeria do Rock , na rua 24 de maio, onde procuro uma ótica-oficina, especializada em consertos de antigas armações. Um desses lugares que poderíamos considerar improváveis, nos sete andares de lojas pouco ortodoxas, onde estúdios de tatuagem e piercings proliferam e disputam cada metro quadrado com vitrines de moda roqueira. Acho que nunca vi concentração tão grande de caveiras estampadas em camisetas pretas. Quase não resisto à tentação de comprar uma para vestir imediatamente e me sentir menos peixe for a d’água, enquanto subo os lances de escada em busca da Ótica Gilmar. Encontrá-la no quarto andar me resgata desse delírio heavy metal, para me concentrar no que me levou ali: o conserto de um óculos.  A atendende me informa que ele estará pronto em uma hora. Um bom pretexto para explorar um pouco mais desse templo de tribos tão diferentes da minha.

Subo e desço mais algumas vezes os sete andares da galeria. Cruzo com roqueiros de todas as idades e estirpes. Aleatoriamente, visito lojas que vendem skates,  tênis, jaquetas de couro… Até que entro em uma de discos de vinil e paro para observar o adolescente que, em atitude quase religiosa, escuta  ‘Abbey Road’ dos Beatles. É interessante vê-lo quase venerar umas das trilhas sonoras que embalaram minha adolescência nos anos setenta. … ‘Something in the way she moves…’ Minha admiração mal disfarçada acaba chamando sua atenção e ele dispara animado

“Adoro esses caras. Viajo no som deles!’ --  para em seguida perguntar em tom profissional:

”Você está procurando algo específico? Posso ajudar?”

Me dou conta, então, que ele é o vendedor da loja. Vou logo explicando que não procuro nada em especial, que estou apenas fazendo hora para buscar um conserto na ótica do quarto andar e que fui atraída pela visão de tantos vinis num só espaço.

“Me levou de volta no tempo”,  justifico.

Ao que ele, prontamente, retruca:

“Irado! Quer ouvir algum outro álbum dos Beatles ou dos Stones?! Temos praticamente tudo, aqui”.

Resolvo, então, testar sua percepção e seu conhecimento sobre o que, acho, está implicito na conversa como sendo “a minha época” e pergunto o que ele tem do Pink Floyd e do Led Zepplin.  Me surpreendo com o entusiasmo da sua reação:

“Nooooossa! Você gosta mesmo do que é bom!” , festeja, ao mesmo tempo em que já vai me mostrando a lista de títulos, me conduz para a bancada onde posso ver os discos e discorre sobre os melhores hits dos dois grupos.  Sem me dar tempo de escolher o que quero ouvir, afirma empolgado:

“O Led Zepplin, pra mim, define o que é rock”.

E coloca  ‘Whole lotta love’ (Um bocado de amor) no toca-discos, uma das minhas favoritas.

A voz rouca de Robert Plant, vocalista do Led Zepplin, ainda grita  I'm gonna give you my love, ah / oh, whole lotta love / wanna whole lotta love… , quando me dou conta da hora e que o expediente da ótica terminará em dez minutos. Agradeço ao vendedor a atenção que me dedicou, mesmo sabendo que provavelmente não compraria nada, e vou me despedindo em direção à saída da loja. Ele me acompanha até a porta e, antes de me dar tchau, conta:

“Amo todos esses discos, porque os escutava sempre com a minha avó. Ela faria sessenta anos este ano, se fosse viva. Seu gosto musical me fez lembrar muito dela”.

Interior da Galeria do Rock 
O susto é tão grande, que fico imóvel e em silêncio por uma eternidade de segundos. Até conseguir articular um insípido ‘então, tá. Legal’ e disparar
pelo hall da galeria escada acima, para finalmente buscar meus óculos. Ao testá-los diante do espelho da ótica, não consigo conter um ataque de riso.

“Então, tá, vó Vera”— digo em silêncio para a minha imagem refletida.

Pago o conserto, venço os quatro lances de escada de volta até o térreo e deixo a Galeria do Rock pela entrada oposta à que usei quando cheguei ali. Saio em plena avenida São João. Respiro fundo e caminho, pensando no que o adolescente da loja de discos me dissera e na minha completa ausência de reação. Me comovo com a sua saudade da avó, que teria a idade que completarei este ano, travestida em clássicos do rock and roll.  Me pergunto: como seria ter um neto de dezoito anos que gosta de Beatles e Rolling Stones? Eu, logo eu,  que não quis ser mãe e só adotei gatos como filhos. Vó Vera, balbucio pra mim mesmo. Vó Vera, repito em silêncio, lembrando do filho do meu enteado, que desde pequenininho sempre me surpreende quando me chama assim. Vó Vera… E ele sempre me chama assim. 

Então, tá, meu neto, ainda que postiço, Luis Eduardo. Como você tem só doze anos, ainda temos tempo para descobrir o barato de ouvir Beatles e Rolling Stones juntos.   

Então, tá, Vó Vera.

Ao cruzar a avenida Ipiranga com a São João, caio no clássicoo clichê: lembro dos versos de Caetano, em Sampa, e choro baixinho.  ‘Alguma coisa acontece no meu coração…’
Volto pra casa caminhando sob a chuva que agora cai sobre a cidade. A cidade da qual, de acordo com o mesmo Caetano,  ‘Rita Lee é a mais perfeita tradução’.

(*) Celacanto provoca maremoto era o chamado ‘grito-slogan-marca’ da maioria dos pichadores do Rio de Janeiro, nos anos 80/90.

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I love cloudy days. I love to watch the grey clouds and smell the potential rain on them. In the Brazilian Summer, when you cannot be smart out of the air conditioner, these few fresh grey days are a welcome and desired break. I take the opportunity of one of them to walk around downtown and better explore São Paulo, the city I adopted as mine twelve years ago for professional reasons.

Sé square, San Francisco corner, San Bento street, Chá Bridge, Anhangabaú, Municipal Theatre … I browse around those locations without checking the maps expatriated like me always bring with them. I move forward asking people on my way: ‘where is, please…?’ And, of course, that implies some unnecessary detours.

Perspective of the interior of the seven-floor-building
The old Rock Gallery, at 24 de maio street, 62,  is my destiny. I am looking for a recommended eyeglasses repair shop that is specialized in fixing old frames. One of those places we would never look for in a seven-floor building where tattoos and piercing studios compete for space with rock and roll fashion stores. I think I have never seen so many skull black T-shirts together in a place. I have to make a big effort to avoid buying one for myself, as a way of mitigating my outsider feelings while I look for Gilmar’s eyeglasses repair shop. Finding it on the fourth floor rescues me from this heavy metal rock and roll hallucination to focus on what brought me there: fix my eyeglasses.  As they tell me they need an hour to do the job, I take the opportunity to browse around this unusual gallery.

I go in and out of many of the four hundred plus stores spread over the gallery’s seven floors till I find a vinyl boutique where a teenager listens to Beatles’ Abbey Road album. …’Something in the way she moves…’ When he notices me in the store, he states excited:

“I love these guys. I fly with their sound”—to complete in a more professional tone:
“Are you looking for something special? Can I help you?”

I realize he is the store attendant and tell him I am not looking for anything specific. I explain I am buying time to get my stuff at the four-floor eyeglass repair shop in an hour and justify myself:

“I saw so many vinyl’s here that got attracted. It was like flying back in time”.

His reaction is enthusiastic:

“Great! Would you like to listen to any Beatles’ or Stones’ albums? We have almost all of them here”.

I, then, decide to check how much he knows about rock and roll and about what I believe he thinks is ‘the music of my time’. So I ask him about Pink Floyd and Led Zepplin and get surprised with his excitement:

“Wow! You really know what is good, don’t you?!”

He celebrates my taste, shows me the list of albums he has in the store and, before I can say anything, he states:

“For me, Led Zeppling defines what rock and roll is”, while he plays one of my favorite Led Zeppling’s songs: ‘Whole lotta love’.

I still listening to it when I realize what time it is and notice Girmar’s eyeglasses repair shop is up to close its tenure for the day. So, I thank the attendant for his attention and start saying bye bye on my way to the store exit. He follows me and,  before saying bye, he tells me:

“I love all these song albums, because I used to listen to them with my grandmother. If she was alive, she would turn sixty this this year. Your music taste reminded me a lot of her”.

I am so shocked that I keep silently stand still for seconds that look like an eternity. When I finally articulate something, I can only say: “That’s OK. Cool!”, before running away through the gallery’s hallway towards the eyeglasses repair shop four floors above. When I finally try my fixed eyeglasses and look at my image in the shop’s mirror. I can’t avoid laughing:

“So, that’s it, grandma Vera. That’s it.”— I say to myself silently.

I pay for the service, walk down to the ground floor and leave the gallery through the opposite entrance I first got in. I am in São João Avenue. I breathe deeply, think about what the vinyl’s store attendant told me and recall my lack of reaction. I feel moved about his connection with his grandmother. I ask myself how it would be having an eighteen-year-old grandson who loved Beatles and Rolling Stones. Me, the one who have never wanted to be a mother and only have adopted pets. Granma Vera, I whisper to myself. Granma Vera, I repeat silently, remembering of my stepson’s son who has ever called me grandma Vera, regardless of any frights it would provoke on me.

Yes, Grandma Vera.

OK. So it is, my grandson Luis Eduardo. As you are only twelve, I believe we still having time to discover together the pleasure and beauty of listening to Beatles and Rolling Stones.

OK. That’s it, grandma Vera.

While I walk through São João and Ipiranga avenues crossroads, I can not avoid the cliché of silently crying while thinking about Caetano Veloso’s  ‘Sampa’ (*) lyrics: ‘Alguma coisa acontece no meu coração’ (Something happens to my heart)…
I walk back home while it rains over the city. The city which, again according to Caetano, ‘Rita Lee é a mais perfeita tradução’ (Rita Lee (**) is the most perfect translation).

(*) Caetano Veloso is a recognized Brazilian composer who created the song ‘Sampa’ in honor of São Paulo, capital of São Paulo state in Brazil. This song means to Brazilians what New York New York means to Americans.
(**) Part of Sampa lyrics that mention the Brazilian Rock and Roll queen: Rita Lee.

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