Quem sou eu

sábado, 15 de outubro de 2016

Para Sempre Jovem / Forever Young

“A vida não permite ensaios. É um plano sequência que passa uma só vez. Não deixem nada nem ninguém  amargurar  a vida de vocês”.

A frase proferida pelo ator Marcos Tumura, no encerramento do musical ‘Forever Young’ (Para sempre jovem (*),  soa como um alerta e convida à reflexão, diante do que a vida oferece como destino inexorável a todos que não morrem jovens: a velhice.  É dela que a peça trata, sem lançar mão das maquiagens retóricas que constantemente tentam disfarçar o que significa envelhecer com todas as letras.  Dela e da sua inerente vulnerabilidade, que  limita, constrange, irrita e pode tornar-se insuportável, se não aprendemos a rir de nós mesmos.  Uma prática que o espetáculo de duas horas nos induz a exercitar, apesar da decrepitude em cena.

Musical 'Forever Young', em cartaz até 30/10, em SP
Confesso que, sem conseguir conter o choro em muitos momentos, dei boas gargalhadas. Ri e chorei, ao reconhecer no palco muito da realidade vivida pelos meus pais nonagenários (escrevi sobre eles aqui no blog, no post ‘Meus pais, meus filhos’). Ri e chorei, ao identificar nos personagens teimosias, ranzinzices e devaneios que, provavelmente, repetirei, se eu viver até 2050: situação hipotética proposta pela peça. Ri e chorei, porque, se a vida imita a arte -- ou seria ao contrário?!... Ou ambos?! --, encerrarei minha jornada em um asilo e, sendo assim, faz-se necessário colocar esse tema em discussão na pauta da minha agenda de futuro.

Começo, então, aqui. E me desculpem se o assunto é árduo, árido, difícil de digerir – ele também não é fácil pra mim. Mas como filha única de pais idosos, parceira de um companheiro quinze anos mais velho, sem filhos, e com a chance de viver mais trinta anos, acho pertinente me perguntar:  e quem vai cuidar de mim?!!!!!  De mim e do Péricles, o jabuti setentão que passou a ser membro da minha família, há 14 anos,  a partir do casamento e  que,  provavelmente,  será o único a ainda estar por aqui em 2050…

Eu sei, eu sei: não há qualquer certeza de que as coisas transcorrerão dessa forma. Nada garante que daqui a cinco minutos, antes mesmo que termine de formular este post, eu… Caput! Desculpem novamente, mas a onomatopéia é a única forma que me ocorre, para expressar o segundo em que o lampejo da vida se apaga e para tentar fugir da cafonice desse clichê que acabei de escrever.  Mas como todo mundo tem um lado B, de brega mesmo, conto com a benevolência, também com B, de vocês, para aceitar essa minha permissividade de estilo, na tentativa de não parecer mórbida.
Péricles, o jabuti senior, que hoje tem 70 anos
Breguices consideradas, sempre assumi as minhas: chorar com comercial de margarina na TV; ler/devorar romances água com açúcar; gostar do Wando e do Sidney Magal, com seu repertórios erotizados --  …”Meu iaiá, meu ioiô!”… “O meu sangue ferrrrrve por você!”…  -- Rs Rs Rs. Acho que só perco mesmo para um colega de trabalho que, anos atrás,  numa disputa sobre quem teria o lado mais B, confessou não resistir ao apelo gastronômico (ou seria de gula duvidosa?!) daqueles ovos cozidos com casca cor-de-rosa, encontrados em balcões-vitrine de botequins pé –sujo.

Mas voltando ao que poderá anteceder o meu Caput.  Ainda que eu tivesse filhos (e não me arrependo de não tê-los, leiam as razões no artigo que escrevi para o site Mulheres50+ -- mulherescinquentamais.com.br), não seria feliz ao ter minha existência pesando sobre suas costas. E este é um fato que precisa ser encarado sem romantismos: a velhice pesa. Mesmo quando acontece em um cenário saudável, ela pesa. Pesa, porque restringe nossa capacidade física;  pesa, porque exige cuidados de prevenção e monitoramento da saúde que, num país  marcado pela precariedade do SUS, são onerosos; pesa, porque, se ainda lúcidos, temos a consciência da progressão das limitações e da dependência que ela causa. E, sobretudo, porque não estamos preparados para lidar com nada disso. Ninguém antecipa, ninguém conta, ninguém ensina.

É nesse aspecto que a peça  ‘Forever Young’ assume um caráter educativo e, também por isso, toca tanto. Ela retrata, sem medo de às vezes ser até politicamente incorreta, a convivência de seis octagenários em um asilo e sua resistência a quem tenta lhes tirar o prazer que ainda tem na vida. Mostra, sem retoques, a rotina de um grupo de velhos – v-e-l-h-o-s, sim, com todas as letras! É preciso não ter medo de usar a palavra que nos definirá a todos, se lá chegarmos --,  com suas manias, idiossincrasias,  incontinências e ausências. Condições que não podem ser corrigidas com recursos de fotoshop, mas que podem, sim, ser relatadas e enfrentadas com humor e um quê de rebeldia.

No musical, a narrativa é pontuada por piadas e pela cadência contagiante do rock'n'roll, sempre acompanhadas pelos risos e aplausos da plateia. Na vida, há que encontrar a sintonia precisa para encarar o desafio. Mas se a vida imita mesmo a arte --ou seria o contrário?!... Ou ambos?! --, essa busca passa por dedicar tempo --  hoje já, aqui e agora --, para aprender a rir de si mesmo e para escolher a trilha sonora que melhor e, alegremente, preencha nossos lapsos de memória. A que me acompanhará ao asilo onde viverei, se chegar aos oitenta, seguramente, terá a música 'Forever Young' na play list. Junto com todas as do Wando e do Sidney Magal, claro :) . 

(*) A peça ‘Forever Young’ está em cartaz, de sexta a domingo,  até o dia 30 de outubro, no Teatro Raul Cortez , em São Paulo. Ao encerrar a temporada paulistana, viajará pelo Brasil e estreará no Rio de Janeiro, no início de 2017. 
(**) Ouça a música "Forever Young' no YouTube https://www.youtube.com/watch?v=t1TcDHrkQYg

…………………………………………………………………………………………………………….....
Se você gostou deste post, por favor, o compartilhe com sua rede de relacionamentos, clicando em um dos botões que aparecem no rodapé da tradução em inglês abaixo.

……………………………………………………………………………………………………………....


“Life is no dress-rehearsal. You live it all in one shot. So, don’t let anyone harm it”.

The actor Marcos Tumura’s sentence at the end of the musical ‘Forever Young’ (*) alerts and invites us to think about the fate everyone who does not dye young will share: aging. The subject is approached by the play without the tricks commonly used to disguise old age real meaning and its embedded vulnerability. A condition that restricts embarrasses and irritates, if we do not learn how to laugh at ourselves. And this is the exercise the play induces us to practice, regardless of the decrepitude we see on stage.

I confess I bursted out laughing and crying during the two-hour show. I laughed and cried, because I recognized on stage the reality my old parents are facing (have talked about it on a previous post “My parents, my kids’). I laughed and cried, because I identified in the characters the stubbornness and irritation that I will probably will repeat, if I live till 2050 (the hypothetical situation proposed by the play). I laughed and cried, because if life emulates art – or is it the opposite?!... Or both?! – I will finish my journey in a shelter; then, sooner or later, need to include the topic on my discussion list.

So, let me start here.

Forgive me if the topic is dry and hard to digest (it is not easy for me either). But as the only daughter of a very old couple, the wife of a fifteen year older husband, having no kids and the chance of living more thirty years, I think it is natural to ask the question to myself: who will take care of me when I get there?! Of me and of Pericles, the seventy year turtle who became part of my family, fourteen years ago when I got married, and probably will be the only one to last till 2050…

I know, I know: we cannot be sure things will happen that way. There is no guarantee I will not CAPUT! Before finishing to write this post. Sorry for the onomatopoeia, but it is the only way I am finding to avoid using clichés. So, back to my question. Even if I had children (and I do not regret not having them), I would not feel happy in being a burden to them. And this is something we need to face: getting old impacts our lives. Even when it happens in a healthy scenario, it is impactful. And it is so, because it imposes physical limitations, because it demands expensive care (mainly in a country like Brazil) , because if our minds still clear, we are aware of how these limitations progress. And we are not prepared to deal with all of that. Nobody tells or teaches us.


In that sense ‘Forever Young’ is educational. It shows how six octogenarians get along with each other in a shelter, despite of their manias, obsessions or absences. And it does that without fearing to be politically incorrect – a needed approach to portray the reality and face it with humor and a bit of rebelliousness. On the stage, the narrative is highlighted by jokes and rock’n’roll. In life, we need to find the right tone and tunes. But if life emulates art – or is it the opposite?!... Or both?! – We need to dedicate time, now and immediately, to learn how to laugh at ourselves and to choose the soundtrack that will fulfill our lack of memory.    

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Pra Não Dizer que Não Falei de Amor / Talking About Love

Há quinze anos, ‘esbarrei’ com meu hoje marido na cerimônia de cremação da mãe de uma das minhas melhores amigas. Apesar de sabermos um da existência do outro em função da amiga em comum, foi naquela situação fúnebre que nos vimos pela primeira vez . Um primeiro encontro nada romântico, em que me chamou a atenção sua desorientação geográfica -- ele chegou atrasado à cerimônia, porque havia se perdido no caminho para o crematório – e em que ele (muito depois me disse) achou que eu parecia um fantasma, por conta da pele muito branca, do cabelo vermelho e dos óculos de sol pretos. Primeiro, quase único e último encontro, já que, uma semana depois, a amiga em comum retornou a Vancouver (*),  para retomar a vida que interrompera dois anos antes, quando veio para o Rio cuidar da mãe doente.

Eu e o hoje (e pra sempre) marido
Não fosse eu decidir , quase um ano depois, comemorar meus 45 anos com uma grande festa, provavelmente, nós nunca mais teríamos nos visto. O interessante é que o desejo de promover um encontro que juntasse família e amigos da vida inteira surgira também, um ano antes, em um velório. O do meu padrinho e tio Leo (já o mencionei aqui algumas vezes em outros posts), durante o qual um dos seus filhos, meu primo, Leozinho, sugeriu meio a sério, meio brincando:

 “A gente precisa arranjar um motivo para se encontrar e celebrar a vida, antes que seja tarde”.

Tive a felicidade de organizar a festa a tempo. A tempo de contar com a alegria do próprio Leozinho na pista de dança (ele morreria precocemente poucos anos depois). A tempo de retomar contato com pessoas importantes na minha vida que não via há anos. A tempo de fazer as pazes com outras, igualmente importantes,  antes que os anos se passassem e solidificassem mágoas. A tempo de convencer minha amiga, retornada ao Canadá, a voltar ao Brasil, para virar a página de tristeza que ela associara ao Rio, em virtude da doença e morte da mãe.

Ela veio e,  como uma ‘quase celebridade internacional’, ganhou o direito de ser a única convidada que poderia vir à festa com mais de um acompanhante. Foi assim que o hoje marido voltou a cruzar meu caminho. Dessa vez, sem se perder no trajeto, sem achar que eu fosse uma alma penada saltitando pelo salão, mas não para ficar; não ainda. Após o reencontro, ainda demorou mais de uma semana para que ele me enviasse flores, com a seguinte justificativa:

“Esperei que todas as rosas que você recebeu murchassem, para que você prestasse atenção às minhas”.

Quando finalmente as recebi, elas já estavam secas – eu viajara a trabalho na véspera delas chegarem  e ficara quase dez dias fora--; mas o cartão estava lá, intacto, a minha espera.  Liguei para agradecer a gentileza, expliquei o motivo da demora em fazê-lo, e com medo de um daqueles silêncios constrangedores, emendei assuntos da viagem, da festa, da amiga em comum, da viagem, da festa, da amiga em comum,  da viagem, da amiga em comum, da festa …  Até que tive que fazer uma pausa para respirar e ouvi a gargalhada do outro lado da linha sublinhando o comentário:

“Ainda bem que você perdeu o fôlego. Pensei que nunca mais fosse parar de falar. Quando vamos jantar para você me mostrar as fotos?”

Rimos juntos.

Eu já nem lembrava que, no meu discurso de metralhadora giratória, havia mencionado as fotos da festa, mas aceitei o convite que veio com a ‘ justificativa-vontade-de-vê-las’. Aceitei esse e todos os outros  que vieram nas semanas seguintes. Convites que, rapidamente, se transformaram em encontros, reencontros, e que, sendo assim, não precisavam mais de pretextos; querer estar junto bastava.  E nós queríamos. Queríamos muito.

Queríamos tanto, tanto, tanto, que o hoje marido – na época, quase namorado, achava eu --  entrou em pânico (depois me contou) e desapareceu. Do dia para a noite, parou de telefonar, de atender ligações, de retornar recados, de escrever ou responder e-mails (em 2002, ainda não havia messenger nem whatsapp). Enfim, sumiu.

“Como SUMIU? Por que SUMIU?”— Perguntavam, incrédulos, todos os que vinham acompanhando nossa história. Uma história ainda curta, sim, mas que a todos parecia verdadeira.

“Sumiu, sumindo, desaparecendo, não dando mais notícias!...”— Eu respondia, entre desalentada, humilhada, enraivecida e inconformada.  Não queria ouvir a minha própria resposta, nem aceitar que tudo o que eu já considerava como ‘nossa história’ não passara de uma aventura. Me negava, terminantemente, a acreditar que, aos 45 anos, eu tivesse me enganado tanto de pessoa.
E foi graças a essa falta de resignação que, numa noite de sábado, engoli raiva, humilhação,  desalento,  assim, tudo junto, doendo e misturado, para, num impulso, bater à porta do apartamento do hoje marido e disparar:

“Você pode até não querer mais me ver, mas não vai virar as costas sem me dizer o motivo”.

E antes que ele pudesse se recuperar do susto, fui entrando casa adentro e me sentando no sofá, para ouvir o que viria depois de um longo silêncio (esse eu não quis evitar).

Faz 14 anos. Catorze anos que, diariamente, agradeço ter seguido a minha intuição, para praticamente invadir aquele apartamento e arrancar quase a forceps os medos, as desconfianças, as incertezas, as cicatrizes que, assim, tudo junto, doído e misturado, explicavam, justificavam e desculpavam o que eu não me acovardei em ouvir, nem em lidar.  Faz 14 anos. Catorze anos que nos despimos dos nossos passados, temores, traumas e das convenções, para, juntando e misturando tudo isso, assim,  sem dor ou rancor, abraçarmos o presente, acreditando que tínhamos um futuro juntos. Faz 14 anos. Catorze anos de vida compartilhada, em que, a cada dia, todos os dias,  conquistamos a felicidade de mais um dia juntos. Que venham mais 14, 28…, quantos anos ainda couberem nessa jornada que escolhemos trilhar de mãos dadas.

(*) Vancouver – cidade da costa Oeste canadense.

........................................................................................................................................................
Se você gostou deste post, por favor, compartilhe com a sua rede de relacionamentos, clicando em um dos botões localizados no rodapé da versão em inglês abaixo.
………………………………………………………………………………………………………………

Fifteen years ago, I bumped with my husband in one of my best friends’ mom’s funeral. Although we had heard about each other because of this friend we had in common that was the first time we met. It was not a romantic meeting, but I noticed his lack of orientation – he arrived there late, after getting lost on the way to the crematory – and he (much later told me) thought I looked like a ghost, due to my pale white skin, red hair and black sunglasses. That was our first and almost last meeting, since, a week later, our friend flew back to Vancouver to get back to the life she had abandoned, two years earlier, to come to Rio to take care of her sick mother.

We probably would never see each other again, if one year later I hadn’t decided to celebrate my 45th anniversary with a big party. A party I actually started planning in my father-in-law and uncle Leo’s funeral (I have talked about him in previous posts), when one of his sons, my cousin Leo Jr, made a joke and a suggestion:

“We should find a good reason to get the whole family together and celebrate life, before it is too late”.

I was lucky enough to organize it in time. In time of counting on Leo Jr’s presence happily dancing there (he would precociously die several years later). In time to get in touch again with people who meant a lot to me and I hadn’t seen for years. In time to make peace with friends I had broken with, before time solidified harm and sorrow. In time to convince my Canadian friend she needed to come to Brazil and turn on the sad page of her mom’s illness and death.

So, she did. And as an almost international celebrity, she won the privilege of inviting as many escorts as she wanted to go with her to the party. That was how my husband crossed my road again. This time he did not get lost on the way to the event, neither thought I looked like a dancing ghost; but he did not come to stay – not yet. After the party, it took him more than a week to send me flowers with this justification on a card:

“I bought time to be sure all the other roses you received had already withered, so you would pay attention on mine”.

When I finally got them, they were dry -- I had travelled on business the day before they arrived and stayed out for almost ten days – but the card was there waiting for me.  So, I called my husband to thank the flowers. After explaining why I was late in getting back to him, I got so afraid of one of those long silences that happens when you are not comfortable in a conversation, that I started small talking about my trip, the party, our friend in common, the trip, the party, our friend in common, the trip, the party… Till the moment I had to take a break to breath and heard a big laugh highlighting this comment:

“I am glad you needed to take a breath, otherwise I guess you would never stop talking, would you?!...  By the way, when can we have dinner? I want to see the pictures of the party you have mentioned”.

We laughed together.

At that point, I did not even remember I had mentioned the photographs, but accepted the invitation. That one and all the others he made in the following weeks. Dates that quickly became part of our lives and did not need any justification to happen any more. We wanted to be together; that was enough. And this was so true, that he panicked (he confessed afterwards) and disappeared, From day to night, he stopped calling, answering my calls, returning messages, writing or responding emails (in 2002, Messenger and Whatsapp did not exist). After all, he vanished.

“How, why did he disappear?”—Everyone who was aware of our story asked.

“…Disappearing, vanishing, not dropping a word…”—I answered humiliated, angry and sad, not bearing the meaning of my own words and not accepting the possibility I had made such an adolescent mistake. I simply could not believe the man I had fall in love with was a bluffer  Not when I was forty-five years old (!).
It was this lack of resignation that made me swallow the anger, the sadness and the humiliation to follow the impulse of knocking at my husband’s door and before he could react, tell him:

“You may not want to see me anymore, but you have to tell me why”.

It has been fourteen years. Fourteen years I thank myself for believing in my instincts to go after him and make him share fears, uncertainties, scars… All that junk that explained excused and justified what I was not afraid of hearing or dealing with. It has been fourteen years. Fourteen years we left our past, traumas and conventions behind to embrace the present, because we believed we had a future together. It has been fourteen years.  Fourteen years we have been sharing a life, in which each day, every day, we build the happiness of spending another day together. We look forward to the next fourteen, twenty-eight years…whatever fits in this journey we decided to take as partners.


sábado, 1 de outubro de 2016

Reflexões de Primavera / Spring Thoughts (*)

Da janela do apartamento onde moro, em São Paulo, vejo um ipê amarelo. Fica do outro lado da rua, meio espremido, na quina de terreno que virou  jardim do prédio em frente. Um canto em ângulo de 45 graus que não pode ser ocupado pela construção do edifício e deu lugar a esse pequeno espaço verde. O jardim, na verdade, é quase  um canteiro, coberto por algumas plantas rasteiras, que serve de base para a árvore solitária.

Nos quase 12 anos  em que vivo aqui, observo esse ipê quase que diariamente. Foi meu marido, que tem alma de jardineiro, quem chamou minha atenção pra ele. Primeiro, por conta dos bem-te-vis que fazem dos galhos da árvore moradia e, alegremente, anunciam a chegada das manhãs. Depois, por causa  do comportamento da sua copa, que durante todo o ano se prepara para vestir-se de amarelo na primavera.

Vista da minha janela da copa do ipê, com a floração de 2015
A estação inaugurou o calendário, na quinta-feira da semana passada (22/09), precisamente às 11:21. O ipê ainda não floresceu. Ele tem seu tempo próprio, marcado pela brisa mais suave da temporada e pelo sol que se estende em dias mais longos; não se submete ao cronômetro das datas cravadas em agendas. A espera por suas flores enche meu coraçãoo de alegria. A mesma alegria que pontuava meus dias --  eu ainda menina -- antecipando a floração de hortênsias e lírios, em Petrópolis (*).  Um misto de contentamento e esperança, que se materializava em pequenas felicidades como:  tomar sorvete sem o risco de ficar resfriada, já que as temperaturas na serra tornavam-se mais amenas;  ir para a escola sem a pesada japona de inverno, que me deixava sem cintura e me fazia parecer desengonçada como um saco de batatas (eu achava); poder brincar na rua até mais tarde, já que a primavera trazia com a ela o horário de verão (!)  Só muito mais tarde fui  entender porque o horário de verão sempre começava na primavera e terminava antes do outono chegar. Naquela época, sua existência bastava para me fazer feliz.

Pequenas felicidades que, na adolescência e juventude, se traduziam em planejar as férias de verão, na casa de praia do meu padrinho e tio Leo (já falei dele em outro post aqui no blog), em Barra de São João (**); em paquerar a paixão da vez nas ‘tardes domingueiras’ da boite do Quitandinha (***);  em me ver batizada pelas crianças da família com o codinome primaVera e, para eles,  passar a simbolizar a própria estação; em assistir a três sessões seguidas de um mesmo filme, porque ele expressava tudo o que eu sentia e não sabia dizer. Sentimentos sempre arrebatadores e definitivos, que assim se manifestavam até a chegada da primavera seguinte 

Foram muitas primaveras até aqui e espero que ainda venham outras tantas. Nenhuma delas teve o peso histórico de uma primavera de Praga, mas todas foram importantes como marco de esperança na minha história particular. Quase seis décadas pontuadas por alegrias, tristezas, perdas, ganhos, encontros e desencontros, como a vida de qualquer um; porém, sedimentadas nessas pequenas felicidades que, se cultivadas no dia a dia,  alimentam nossa capacidade de ter esperança. Esperança de viver em um país melhor, pautado por valores que representem o bem comum. Esperança de fazer parte de uma sociedade menos excludente, em que prepondere a tolerância para acolher o que é diferente. Esperança em poder, de alguma forma, contribuir para transformar o que está em volta; fazer a minha parte para tornar o mundo menos áspero.

E é essa esperança que vejo renovar-se com a estação que acaba de começar. A primavera que se expressa em exuberância na copa verdejante do ipê, do outro lado da rua;  que nutre seus brotos para que logo desabrochem em florzinhas amarelas. Ainda que ele seja apenas uma árvore solitária, numa quina de terreno, em uma cidade cinza como São Paulo. E mesmo que, nesse momento, seu tronco, sirva de apoio para um cartaz anunciando em letras garrafais: ‘Aluga-se Apto’.

(*) Petrópolis – cidade serrana onde nasci; localizada  a 60 km da cidade do Rio de Janeiro.
(**) Barra de São João – cidade do litoral norte do Estado do Rio.
(***) Quitandinha – antigo cassino,  situado em Petrópolis, que foi transformado em clube, depois da proibição do jogo no Brasil.

..........................................................................................................................................................


From my window I see a Brazilian yellow timber tree (ipê amarelo) on the other side of the street. It is grounded on the sharp edge of a building back yard that was almost useless. I have been daily watching this tree, since I moved to São Paulo, almost twelve years ago.  Actually, it was my husband, who has a gardener’s heart, who called my attention to it. At first, because of the birds who have built nests there and wake up singing every morning to announce a new day. Secondly, because of its treetop that seems to make arrangements during the whole year ‘to dress yellow’ in the spring.

The season started last week (09/21), at 11.21 am, but the yellow timber tree has not flourished yet. It has its own time and it is not scheduled on calendars. Waiting its flowers to blossom fills my heart of happiness. The same happiness I felt when I was a girl and anticipated lilies and hydrangeas flowering, in my hometown, Petrópolis (**). It was a mix of joy and hope associated with small pleasures, such as: having an ice-cream outdoors without fearing to get a cold, since we had pleasant temperatures; not wearing a coat to go to school early in the morning; being allowed to play outdoors till later in the night, once spring brought day light savings.

Small pleasures that later, when I was a teenager, meant to plan summer vacations at my uncle’s beach house, in Barra de São João (***); to flirt with the momentary chosen charming prince at Quintandinha’s (****) balls; watch three sessions in a row of the same movie, because it expressed everything I felt and did not know how to say. Those were what I felt as ravishing and definitive feelings. Feelings that would actually last till the next spring. J

There were many springs and many others are to come (I hope). None of them had a historical weight, such as Prague’s spring, but all of them meant to be important to my own history. An almost six decade story made of joy and sadness, wins and losses, bad and good moments as everybody else’s lives. A story also fed by those small pleasures that are fundamental to nurture our hope. The hope to live in a better country, driven by trues values; the hope to belong to a more inclusive society; the hope to contribute to build a rough less world.

And this is the hope I see flourishing with the spring that has just started here, in the South hemisphere. The spring that makes the yellow ipê tree prepares its flowers to blossom on the other side of the street. No matter if it is a lonely tree grounded on the sharp edge of a building back yard, in the grey São Paulo city. No matter, if at this moment, a poster announcing an apartment for rent hangs on its timber.
………………………………………………………………………...........
(*) In Brazil, spring season lasts from late September to late December.
(**) Petrópolis – my hometown. It is located 60 miles away from Rio de Janeiro city
(***) Barra de São João – beach village, located in the North of Rio de Janeiro state.

(****) Quitandinha – it was a casino, in Petrópolis, and became a club when games were forbidden in Brazil.