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sábado, 1 de outubro de 2016

Reflexões de Primavera / Spring Thoughts (*)

Da janela do apartamento onde moro, em São Paulo, vejo um ipê amarelo. Fica do outro lado da rua, meio espremido, na quina de terreno que virou  jardim do prédio em frente. Um canto em ângulo de 45 graus que não pode ser ocupado pela construção do edifício e deu lugar a esse pequeno espaço verde. O jardim, na verdade, é quase  um canteiro, coberto por algumas plantas rasteiras, que serve de base para a árvore solitária.

Nos quase 12 anos  em que vivo aqui, observo esse ipê quase que diariamente. Foi meu marido, que tem alma de jardineiro, quem chamou minha atenção pra ele. Primeiro, por conta dos bem-te-vis que fazem dos galhos da árvore moradia e, alegremente, anunciam a chegada das manhãs. Depois, por causa  do comportamento da sua copa, que durante todo o ano se prepara para vestir-se de amarelo na primavera.

Vista da minha janela da copa do ipê, com a floração de 2015
A estação inaugurou o calendário, na quinta-feira da semana passada (22/09), precisamente às 11:21. O ipê ainda não floresceu. Ele tem seu tempo próprio, marcado pela brisa mais suave da temporada e pelo sol que se estende em dias mais longos; não se submete ao cronômetro das datas cravadas em agendas. A espera por suas flores enche meu coraçãoo de alegria. A mesma alegria que pontuava meus dias --  eu ainda menina -- antecipando a floração de hortênsias e lírios, em Petrópolis (*).  Um misto de contentamento e esperança, que se materializava em pequenas felicidades como:  tomar sorvete sem o risco de ficar resfriada, já que as temperaturas na serra tornavam-se mais amenas;  ir para a escola sem a pesada japona de inverno, que me deixava sem cintura e me fazia parecer desengonçada como um saco de batatas (eu achava); poder brincar na rua até mais tarde, já que a primavera trazia com a ela o horário de verão (!)  Só muito mais tarde fui  entender porque o horário de verão sempre começava na primavera e terminava antes do outono chegar. Naquela época, sua existência bastava para me fazer feliz.

Pequenas felicidades que, na adolescência e juventude, se traduziam em planejar as férias de verão, na casa de praia do meu padrinho e tio Leo (já falei dele em outro post aqui no blog), em Barra de São João (**); em paquerar a paixão da vez nas ‘tardes domingueiras’ da boite do Quitandinha (***);  em me ver batizada pelas crianças da família com o codinome primaVera e, para eles,  passar a simbolizar a própria estação; em assistir a três sessões seguidas de um mesmo filme, porque ele expressava tudo o que eu sentia e não sabia dizer. Sentimentos sempre arrebatadores e definitivos, que assim se manifestavam até a chegada da primavera seguinte 

Foram muitas primaveras até aqui e espero que ainda venham outras tantas. Nenhuma delas teve o peso histórico de uma primavera de Praga, mas todas foram importantes como marco de esperança na minha história particular. Quase seis décadas pontuadas por alegrias, tristezas, perdas, ganhos, encontros e desencontros, como a vida de qualquer um; porém, sedimentadas nessas pequenas felicidades que, se cultivadas no dia a dia,  alimentam nossa capacidade de ter esperança. Esperança de viver em um país melhor, pautado por valores que representem o bem comum. Esperança de fazer parte de uma sociedade menos excludente, em que prepondere a tolerância para acolher o que é diferente. Esperança em poder, de alguma forma, contribuir para transformar o que está em volta; fazer a minha parte para tornar o mundo menos áspero.

E é essa esperança que vejo renovar-se com a estação que acaba de começar. A primavera que se expressa em exuberância na copa verdejante do ipê, do outro lado da rua;  que nutre seus brotos para que logo desabrochem em florzinhas amarelas. Ainda que ele seja apenas uma árvore solitária, numa quina de terreno, em uma cidade cinza como São Paulo. E mesmo que, nesse momento, seu tronco, sirva de apoio para um cartaz anunciando em letras garrafais: ‘Aluga-se Apto’.

(*) Petrópolis – cidade serrana onde nasci; localizada  a 60 km da cidade do Rio de Janeiro.
(**) Barra de São João – cidade do litoral norte do Estado do Rio.
(***) Quitandinha – antigo cassino,  situado em Petrópolis, que foi transformado em clube, depois da proibição do jogo no Brasil.

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From my window I see a Brazilian yellow timber tree (ipê amarelo) on the other side of the street. It is grounded on the sharp edge of a building back yard that was almost useless. I have been daily watching this tree, since I moved to São Paulo, almost twelve years ago.  Actually, it was my husband, who has a gardener’s heart, who called my attention to it. At first, because of the birds who have built nests there and wake up singing every morning to announce a new day. Secondly, because of its treetop that seems to make arrangements during the whole year ‘to dress yellow’ in the spring.

The season started last week (09/21), at 11.21 am, but the yellow timber tree has not flourished yet. It has its own time and it is not scheduled on calendars. Waiting its flowers to blossom fills my heart of happiness. The same happiness I felt when I was a girl and anticipated lilies and hydrangeas flowering, in my hometown, Petrópolis (**). It was a mix of joy and hope associated with small pleasures, such as: having an ice-cream outdoors without fearing to get a cold, since we had pleasant temperatures; not wearing a coat to go to school early in the morning; being allowed to play outdoors till later in the night, once spring brought day light savings.

Small pleasures that later, when I was a teenager, meant to plan summer vacations at my uncle’s beach house, in Barra de São João (***); to flirt with the momentary chosen charming prince at Quintandinha’s (****) balls; watch three sessions in a row of the same movie, because it expressed everything I felt and did not know how to say. Those were what I felt as ravishing and definitive feelings. Feelings that would actually last till the next spring. J

There were many springs and many others are to come (I hope). None of them had a historical weight, such as Prague’s spring, but all of them meant to be important to my own history. An almost six decade story made of joy and sadness, wins and losses, bad and good moments as everybody else’s lives. A story also fed by those small pleasures that are fundamental to nurture our hope. The hope to live in a better country, driven by trues values; the hope to belong to a more inclusive society; the hope to contribute to build a rough less world.

And this is the hope I see flourishing with the spring that has just started here, in the South hemisphere. The spring that makes the yellow ipê tree prepares its flowers to blossom on the other side of the street. No matter if it is a lonely tree grounded on the sharp edge of a building back yard, in the grey São Paulo city. No matter, if at this moment, a poster announcing an apartment for rent hangs on its timber.
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(*) In Brazil, spring season lasts from late September to late December.
(**) Petrópolis – my hometown. It is located 60 miles away from Rio de Janeiro city
(***) Barra de São João – beach village, located in the North of Rio de Janeiro state.

(****) Quitandinha – it was a casino, in Petrópolis, and became a club when games were forbidden in Brazil.

6 comentários:

  1. Além dos ipês e primaveras, São Paulo está cheia de pitangueiras e amoreiras lotadas de frutos que os pássaros não dão conta de comer! Eu sou uma que disputo com eles essas delícias e não ligo de parar no meio da calçada para catá-los!

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    1. Andrew, posso ver você agachada nas calçadas disputando a 'bicadas' as pitangas e as amoras com os passarinhos :)

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  2. Por aqui (Petropólis) a primavera ainda não apareceu. Tá um frio! Mas as sabias já estão cantando. Espero q esteja proxima.

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    1. Se sabias estão cantando, é porque ta chegando

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    2. Linda reflexao amiga. Aqui no Canada a primavera eh muito ansiada e celebrada quando chega depois dos longos invernos. Os lirios e as cerejeiras sao os primeiros a florir anunciando a mudanca da estacao. Todo melhora de humor.

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    3. Quem sabe não te visitamos em Vancouver em uma dessas primaveras? :0)

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