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sábado, 3 de setembro de 2016

Cem Motivos para Sentir Saudade / One Hundred reasons to Feel Saudade (*)

“A gente se dá conta do quanto o tempo já passou, quando deixa de ser convidado para casamentos e batizados e passa a ser chamado para funerais e missas de sétimo dia”.

O comentário quase filosófico proferido por meu pai,  há oito anos, quando completou seu nonagésimo aniversário, saltou na minha memória, quando, dez dias atrás, acompanhei o noticiário sobre o falecimento de dois jornalistas com os quais, de alguma forma, convivi nos anos oitenta, período em que trabalhei em redações -- Geneton Moraes Neto,  aos 60 anos, e Bety Orsini,  aos 68.
Geneton Moraes Neto
Bety Orsini 


Não importa se essa convivência se resumiu a breves encontros em salas de espera de entrevistas coletivas das celebridades da época -- cada um representando o veículo para o qual trabalhava -- ou se restringiu-se a esbarrões no trabalho de cobertura de algum grande evento. O fato é: a notícia de suas mortes mexeu comigo.

Mexeu, porque, apesar de eu ter trocado o exercício do jornalismo pela carreira em comunicação corporativa, na virada dos anos noventa, continuei acompanhando a trajetória de ambos como leitora e telespectadora. Por isso, já antecipo a saudade da originalidade e da sagacidade com que os dois construíam a abordagem para suas entrevistas. Do impagável senso de humor, que pontuava os textos da Bety, à objetividade crua das perguntas formuladas no vídeo pelo Geneton, vou sentir falta dessa companhia. A vida ficou mais pobre nas páginas e na telinha.

Mexeu, porque, mesmo tendo seguido uma trajetória diferente, acredito que quem, como eu, um dia abraçou o jornalismo como profissão de fé, será sempre um jornalista no coração. Jamais perderá o olhar  a priori descrente, mas sedento por abraçar convicções. Nunca abrirá mão do discernimento, ainda que sofrido, para embarcar em bravatas de plantão. Jamais trocará a busca incansável do porquê que leva ao cerne do que é fato pelo incenso das dissimulações. E sendo assim, quando morre um colega de geração, é como se a coleguinha (*) que ainda existe em mim morresse um pouco também.

D.Lydia, minha mãe, 92 anos,  e Seu Gomes, meu pai, 98
É esse sentimento de perda de uma parte de mim mesma que me remete à percepção do meu pai compartilhada na abertura deste post. Na sua simplicidade lusitana, ele associou o peso da passagem do tempo aos convites para cerimônias fúnebres que, de certa forma, se tornaram rotina na sua vida  hoje quase centenária. Traduziu em poucas palavras a saudade de uma agenda marcada por celebrações, ainda que triviais, com amigos, parentes, contra-parentes e colegas de trabalho – mesmo que já não se lembre de muitas delas. A falta que faz a convivência com parte dos participantes dos pequenos encontros na pracinha perto de casa, onde, diariamente, ele joga porrinha por mais de vinte anos.

“Éramos dezoito, agora somos seis; eu sou o mais velho”, diz ele, ao fazer um breve cálculo e se justificar: “Agora, nem vou jogar todos os dias; as pernas já me pesam. Afinal, são noventa e oito anos!”.

É, quase um século.  Um século que, se a vida permitir, comemoraremos em grande estilo, à moda lusa, com muito bacalhau e vinho, em janeiro de 2018. Um século dos quais sessenta  vem sendo divididos com a minha mãe, hoje com 92 anos,  companheira de todas as horas, não importa se boas ou ruins. “Quando a gente casa, minha filha, é para encarar todas”, afirma ela.  Um século cuja iminência traz um sentimento de urgência -- pressa mesmo -- para a minha própria vida.

Sim, eu tenho pressa; muuuuita pressa.
Pressa de sorrir mais, de andar mais descalça, de fazer mais cafuné no meu marido, de cantar mais embaixo do chuveiro, de aproveitar mais sestas embaladas pelo barulho da chuva , de comer sobremesa sem culpa, de virar mais madrugadas lendo poesia,  dormir de óculos, com o livro apoiado no peito, e quando acordar, espreguiçar a alma, correr para abrir a veneziana e deixar o sol entrar.

Não há mais tempo para desperdiçar, porque quando (e se) eu completar cem anos, quero ter aproveitado todos esses (e outros cem mil) momentos para sentir saudade, muita saudade.

(*) Coleguinha: forma carinhosa como os jornalistas se referem uns aos outros.

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“We realize how much time has gone by, when invitations to join weddings and baptisms are replaced by funerals notifications”.

My daddy made this comment in 2008 when he turned ninety and it immediately came to my mind ten days ago when I read the news about the death of two journalists I used to work with in the eighties: Geneton Moraes Neto, 60 years old, and Bety Orsini, 68. It does not matter if I did not have a close relationship with them. The fact is: knowing they had passed away impacted me.

It impacted me, because, although I changed my career path to corporate communications in the early nineties, I continued following them as a reader and televiewer. Therefore, I know I will miss the originality and sagacity of their interviews. From Bety’s sutile, funny texts, to Geneton’s blunt broadcasted questions,  I will miss their companion a lot. Life has become poorer on printed pages and TV screens.

It impacted me, because,  even chosing a different career path, I believe someone who once genuinely embraced Journalism as a profession, as I did,  in the heart will be always a journalist.  The person will never lose the upfront skeptical profile which is also thirsty to find a proof point that makes him or her believe in something. He or she will never stop pursuing the essence of the facts or making the best effort to keep the feet well grounded. So, when a journalist of my generation passes away, it is as if the journalist who still living in me died a little too.

This feeling of missing a portion of myself recalled my dad’s perception about time. In his simplicity, he associated the weight of becoming older with the funeral invitations that, somehow, have turned to be a routine on his almost centtenial life. With few words, he expressed how much he misses family and friends celebrations and even the small daily meetings with the group he has been playing cards with for the last twenty years.

“We were eighteen guys and now we are only six. I am the oldest one”,  he says quickly recalling numbers and names, before justifying himself: “Now, I do not play everyday anymore; I feel my legs. After all, I am pushing ninety eight!”.

Yeah,… It is almost a century. A century we will celebrate, if life allows us, in a great Portuguese fashion, with a lot of cod fish and wine, in January 2018. Ten decades of which six he spent with my mother, who has just turned ninety two and has been his fulltime partner, for the good and the bad. “When we got married we committed to face everything together, no matter what”, she says. A century that is around the corner and this nearness brings a sense of urgency – a hurry, indeed – to my own life.

Yes, I am in a hurry; a lot of hurry. 
I am in a hurry to better smile, to walk without shoes more often, to embrace my husband more frequently, to sing more and louder in the shower, to enjoy an afternoon nap lulled by the noise of the rain, to eat dessert without guilt, to spend more nights reading poetry, sleep over the book, and wake up in the morning  feeling my soul light, open the windows and let the sunshine in.

There is not time to waste anymore, because when (and if) I turn one hundred years old, I want to have ceased all of those (and other hundreds) moments to miss them. To miss them a lot.


(*) Saudade is a word that only exists in Portuguese. It expresses the nostalgic feeling you experience when you miss something or someone you love.

11 comentários:

  1. Vera, mais uma vez você encanta, emociona e leva o leitor a reflexão sobre o que realmente tem valor na vida. Você sempre honrou a qualidade da narrativa. E nos traz hoje a lembrança das grandes perdas que o jornalismo sofreu. Mas nos enche de esperança de que a belo texto para contar uma história resiste e existe. Parabéns!

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    1. Obrigada, Dibbbbah, pela generosidade das suas palavras e por continuar me acompanhando nessa jornada. ������

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  2. Bera, não só gostei muito deste post, como me inspirou a escrever outro inspirado nele, em meu blog. Em breve te mando. beijo grande!

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    1. Legal, Andrew! Fico feliz em saber que te inspirei. Aguardo o seu post já antecipando o deleite da leitura

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  3. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  4. Inspiradissima heim Verinha! Tem q ser mesmo. Ontem eu Denise e Veronica fomos andar no mato. Fomos pro praque de Teresopolis. Deitar na grama e ficar olhando as nuvens. Falar muito. Rir muito. Certamente esta sera mais uma das muitas boas lembranças que teremos. E queremos muitas mais! Até pra sentir saudade, mas com a vida bem vivida. Com coisas simples porém deliciosas...

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    1. E isso ai, Ju! São essas pequenas grandes coisas que dão semtido e sabor AA vida. 😍😍😍

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  5. Amiga, sinto que estou em sintonia com essas ideias ... A partir do ano que vem vou colecionar pores de sol, trabalhar por causas em que acredito ao inves de $$$$, vou esquecer das horas, e viver cada dia de acordo com as fases da lua e das mares ... Te mando o endereco quando chegar la ... Beijos

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  6. Manda, mesmo! Quero dar um pulo lá pra fazer um brinde de espumante com você :)

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