Quem sou eu

sábado, 6 de maio de 2017

Para exercitar a memória / To exercise memory


Jerry Adriani, Tiberio Gaspar, Belchior. Se as trajetórias dos três músicos recém falecidos aconteceram em linhas paralelas, elas cruzaram a minha vida em algum momento – e ouso dizer: da minha geração -- para se tornarem referência. Referência do fim de uma infância embalada pelos hits do iê-iê-iê, que podiam até ter gosto duvidoso, mas  enchiam nossas jovens tardes de domingo de alegria. Referência de uma adolescência arrebatada por emoções grandiloquentes que se identificava com as canções que faziam cantar multidões nos festivais. Referência de um início de vida adulta atordoado e aflito que se reconhecia nos versos tortuosos e torturados daquele que se dizia apenas um rapaz latinoamericano.
Quando as referências são assim, fortes, a morte de quem está de alguma forma ligado a elas causa estranhamento. E é assim, porque reconhecer a ausência dessas pessoas parece tornar tênue o acesso ao pedaço da nossa história que elas marcaram. Parece nos deixar perdidos no meio de um caminho conhecido, porque o atalho que constumávamos trilhar para chegar ao destino foi apagado. E para que o caminho não desapareça, é preciso redesenhar o mapa.

Redesenhar o mapa?

Sim, redesenhar o mapa. Porque referências são como cartas geográficas, que nos levam aos lugares mais recônditos daquilo que somos, indicando rotas e precipícios, espelhando mares de medos, desejos, sonhos. São cartografias traçadas com o nanquim da emoção, com a delicadeza dos gestos minimalistas, com a precisão que possibilita enfrentar nevoeiros e tempestades. São pergaminhos resistentes ao mofo e às traças. Para quem desconhece esse universo  analógico, aqui vai a tradução: são GPSs internos, que não dispõem de aplicativos para celular.

Referências residem na memória e dela dependem para serem preservadas. Meu marido conta que, nos últimos anos de vida, sua avó, Dona Celina, que morreu aos cem anos e meio, se queixava de solidão, porque não contava mais com interlocutores da sua geração para conversar. Quando ele, neto, respondia que estava ali e lhe perguntava se isso não contava, ela contrargumentava:

“Claro que conta! Você é meu neto. Porém, não é alguém que compartilhe as mesmas referências e me lembre do que eu já esqueci”. 

Não sei a que idade chegarei, nem se até lá contarei com algum contemporâneo para me lembrar do que tiver esquecido. Ninguém sabe. Os que têm filhos e netos até podem contar a eles aquilo que não querem esquecer, mas a julgar pelo relato da centenária Dona Celina, não é suficiente. Outra alternativa é plantar árvores, atribuindo a cada muda uma plaquinha com uma memória, ou escrever livros, perpetuando histórias.  Como não primo pelo dedo verde, escolhi o caminho da palavra. E enquanto não embarco na jornada de escrever um novo livro, vou deixando lembretes registrados aqui.

Então, aí vai o de hoje:: Vera, escute as canções ‘Querida’, ‘Sá Marina’ e ‘A palo seco’ para não se perder de você. e da sua história.
……………………………………………………………………………….
Se você gostou deste post, por favor, o compartilhe com sua rede de relacionamentos, clicando em um dos botões que aparecem no rodapé da tradução em inglês abaixo. Se deseja, a partir de agora, receber notificações dos novos posts do blog no seu próprio email, preencha o requerimento no espaço-retângulo logo abaixo do meu perfil, na coluna à direita deste artigo.
……………………………………………………………………………….

Jerry Adriani, Tiberio Gaspar, Belchior (*). If the trajectories of the three musicians who recently passed away happened in parallel, they crossed my life at some point to become a reference. Reference to the end of a childhood lulled by rock & roll hits, which might even taste doubtful, but filled my young Sunday afternoons with joy. A reference to a teenage girl caught up in grandiloquent emotions that resonated  with songs that made crowds sing at festivals. A reference to an astonished and distressed adult who recognized herself in the lyrics of a guy who defined himself as a Latin American boy.

When the references are so strong, the death of one who is somehow connected to them causes strangeness. And this is so because recognizing the absence of this one seems to make tenuous the access to the part of our history that he/she marked. It seems to leave us lost in the middle of a known path, because the shortcut we used to reach destination has been erased. And so that the path does not disappear, it is necessary to redesign the map.

Redesign the map?

Yes, redesign the map. Because references are like geographical charts, which take us to the most hidden places of what we are, indicating routes and precipices, mirroring seas of fears, desires, dreams. They are maps drawn with the ink of emotion, with the delicacy of minimalist gestures, with the precision that makes it possible to face fog and storms. They are parchments resistant to mold and moths. For those who do not know this analogue universe, here's the translation: they are internal GPSs, which do not have mobile applications.

References reside in memory and depend on it to be preserved. My husband says that in the last years of her life, his grandmother, Mrs. Celina, who died at the age of one and a half, complained of loneliness because she no longer had interlocutors of her generation to talk. When he, her grandson, answered that he was there for her and asked if that did not count, she was brief:

"Of course you count. You count as my grandkid, but not as someone who shares the same references and reminds me of what I've already forgotten."

I do not know how long I will last, nor will I have any contemporaries to remind me of what I've forgotten if I get much older. Nobody knows. Those who have children and grandchildren can even tell them what they do not want to forget, but judging from the centennial Mrs. Celina’s testimony, it is not enough. Another alternative is to plant trees, assigning each seedling a plate with a memory, or writing books, to make histories always live. As I am not a gifted gardener, I have chosen the words path. So, while I do not start writing a new book, I leave behind recorded reminders here.

So, here it goes for today:  Vera, listen to the songs 'Dear', 'Sá Marina' and 'A palo seco' (**) to keep in touch with yourself and your history.

(*) Jerry Adriani, Tiberio Gaspar and Belchior are Brazilian musicians and singers who recently died.
(**)'Dear', 'Sá Marina' and 'A palo seco' are songs respectively composed by the tree musicians above.


8 comentários:

  1. Referências do nosso tempo são mesmo relevantes para a vida que se prolonga. Que possamos seguir juntas, Verinha, nesta trajetória tão rica de trocas, amizade e carinho que é a vida entre amigos.

    ResponderExcluir
  2. Nao so as referencias musicais locais que vao se indo ... Para mim foi um choque saber das mortes do David Bowie, Prince, e no natal passado a do George Michael ... Aos poucos esses referenciais vao passando dessa para outra

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mas ficam na nossa memória, Cyber e, enquanto lá persistem, fazem parte da nossa história.

      Excluir
  3. Estou tão sem​ referências que nem comentei. Hehe...

    ResponderExcluir
  4. Acho importante ter referências de épocas que vivemos mesmo que nos tragam saudades mas podemos recordar momentos da vida em que tinhamos mais convivencias harmoniosas e simples como ir na portaria de uma rádio para solicitar músicas que hostavamos de ouvir e sonhar embaladas por elas, romantismo....Ho. querida relembre... os momentos felizes...que juntinho passamos, sobre a luz do luar.....

    ResponderExcluir