Quem sou eu

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Apenas Humanos / Only Human Beings

Nasci 48 anos depois que  mulheres dos Estados Unidos e da Europa, no início do século passado,  começaram a se organizar e a lutar por melhores condições de vida, pelo acesso ao mercado de trabalho e pelo direito ao voto.  Também não havia nascido, quando elas decidiram criar uma data para lembrar ao mundo que o feminino era e é, sim, fato, mas também tinha e tem direitos.  Não lembro exatamente quando comecei a refletir sobre essas questões – talvez por volta dos 10 anos, quando ouvi falar das feministas queimando sutiãns em praça pública – mas me recordo, com clareza, de ter questionado o valor da iniciativa da Organzação das Nações Unidas de instituir, em 1977, o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Para mim, naquele momento, tudo já havia sido conquistado. 

Eu tinha 20 anos, havia três que deixara a casa dos meus pais para cursar jornalismo em outra cidade e fazia dezoito meses que ingressara no mercado de trabalho. Com meu salário de estagiária, mais os ganhos com trabalhos free-lance, conquistara minha independência econômica:  pagava todas as minhas contas e usufruia da sensação única de caminhar com as minhas próprias pernas; de ser dona da minha vida. Me sentia realmente poderosa e, entre o deslumbramento e a miopia dessa egotrip,  não cogitava que meus colegas homens ganhassem trinta por cento mais que eu pelo mesmo trabalho e acreditava, piamente, que todas as mulheres da minha geração tivessem acesso a oportunidades equivalentes às minhas. 

Santa alienação!  

O primeiro choque de realidade aconteceu no dia em que cheguei mais cedo e deparei com a diarista -- uma moça da minha idade -- na frente do espelho do quarto, experimentando o vestido que eu acabara de comprar para usar no meu aniversário de 21 anos. Desorientada pelo flagrante, ela perdeu a voz ao tentar se explicar. Diante daquele silêncio constrangido, eu me dei conta da diferença entre poder realizar sonhos e só ter a possibilidade de tê-los frustrados. Não deixei que ela tirasse o vestido – a verdade  é que o modelo caíra melhor nela do que em mim – não permiti que se humilhasse em pedidos desculpas, não a demiti. Ela trabalhou na minha casa por mais de quinze anos. Fomos aliadas em várias batalhas travadas ao longo do tempo em que convivemos. Tive a felicidade  de vê-la graduar-se em técnica de enfermagem e conseguir emprego na profissão.

O segundo wake up call (chamada para despertar) ocorreu, meses depois, quando, solidariamente, acompanhei uma amiga a uma clínica para fazer um aborto. Fora o custo emocional de compartilhar uma decisão  que, para ela,  era mais que dolorosa, experimentei o pânico  pela possibilidade de sermos presas em flagrante – ela, por estar exercendo um direito que deveria poder ter sobre seu próprio corpo e que aqui é considerado crime; eu, por ser cúmplice. Sobrevivemos, eu e ela, incólumes perante a lei, porém, marcadas naquilo que fica dolorido na alma. Minha amiga hoje tem quatro filhos crescidos e bem criados, mas até hoje se lembra, com uma ponta de sobressalto, do  que vivemos, naquela clínica, numa tarde de outono. 

O terceiro ‘cai na real, Vera!’ se deu, anos mais tarde, quando, durante o ciclo de promoções na firma em que eu trabalhava, vi uma colega e amiga que, todos reconheciam: deveria ser nomeada para  uma gerência, ser preterida por causa de um homem que, mesmo sem ter toda a sua competência, foi colocado no posto, porque era ‘chefe de família’.  A justificativa ela ouviu de quem tomou a decisão, como algo muito natural e passível de ser aceito, até que ela lhe informou que era/é, ela mesmo, mãe de família --  cuidava/cuida sozinha de dois filhos. Minha amiga hoje exerce cargo executivo em uma grande empresa e dá gargalhadas toda vez que, brincando, lhe pergunto se já enviou o cartão de visitas para quem um dia não reconheceu o seu talento. 

Eu poderia continuar enumerando aqui todas as situações que desmentiram  minhas certezas dos 20 anos. Todas as circunstâncias que me levaram a reconhecer que a independência e a autonomia que pude conquistar, ainda tão jovem, não eram (e ainda não são) garantidas a todas as mulheres da minha e de outras gerações. Poderia recapitular todos os fatos que me fizeram concluir que, mesmo o caminho que trilhei como meu foi pavimentado por aquelas mulheres que ocuparam praças e avenidas, quando eu nem havia nascido. Poderia, mas seria um post interminável, tantos foram os acontecimentos que esfregaram e ainda esfregam a crueza do mundo real na minha cara. 

E é por conta dessa realidade que, antecipadamente, celebro aqui o dia internacional da mulher, cuja importância um dia tanto questionei. Eu o celebro não como ocasião para festejos – pretexto para distribuir rosas vermelhas, mas como uma data que nos convida a refletir sobre o que somos hoje, de onde viemos e para onde queremos ir; como um momento para recalibrar forças e estreitar laços, sem perder a clareza e tampouco a doçura. Uma data para inspirar homens e mulheres  de todas as nacionalidades, raças, idades, credos e opções de gênero, a buscarem o entendimento, a harmonia, a cooperação. Uma data para, simplesmente, nos fazer acreditar que há de chegar o dia em que não precisaremos marcar no calendário dia que nos lembre que somos apenas humanos. 

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I was born 48 years after women from the United States and Europe at the beginning of the last century began to organize and fight for better living conditions, access to the labor market and the right to vote. Nor was I born when they decided to create a date to remind the world that the feminine was and is, a fact, but also had and has rights. I do not remember exactly when I began to reflect on these issues - perhaps around the age of 10, when I heard about feminists burning brassieres in a public square - but I clearly remember questioning the value of the United Nations Organization's initiative to institute , In 1977, the 8 of March like International Women's Day. For me, at that moment, everything had already been won.

I was twenty years old, there were three I had left my parents' house to study journalism in another city and had been in the labor market for eighteen months. With my trainee salary, plus the gains from free-lance jobs, I had gained my economic independence: I paid all my bills and enjoyed the unique sensation of walking with my own legs; Of being the owner of my life. I felt really strong and, amidst the dazzle and myopia of this egotrip, I did not think that my fellow men would earn thirty percent more than I did for the same job, and firmly believed that all the women of my generation had access to opportunities equivalent to mine. .

Holy alienation!

The first shock of reality happened the day I arrived earlier and came across the cleaning lady - a girl my own age - in front of the bedroom mirror, trying on the dress I had just bought to use on my 21st birthday . Disoriented by the flagrant, she lost her voice as she tried to explain herself. In the face of this embarrassed silence, I realized the difference between being able to fulfill dreams and only being able to frustrate them. I did not let her take off the dress, I did not allow her to humiliate herself in apologies, I did not dismiss her. She has worked in my house for over fifteen years. We were allied in several battles fought over the time we live. I was fortunate to see her graduate in nursing technique and get a job in the profession.

The second wake-up call came months later, when, in solidarity, I accompanied a friend to a clinic to have an abortion. Aside from the emotional cost of sharing a decision that was more than painful for her, I experienced panic over the possibility of being caught in the act that is considered a crime in Brazil. We have survived, me and her, unblemished before the law, but marked in what is painful in the soul. My friend today has four grown and well-bred children, but to this day she remembers, with a startle, what we live in that clinic on an autumn afternoon.

The third 'wake up to reality, Vera!' came years later when, during the promotions cycle at the firm where I worked, I saw a colleague and friend whom everyone recognized: should be appointed to a management, be deferred because of a man who, even without having her skills, was placed in the post because he was 'head of the family'. The justification she heard from the one who made the decision, as something very natural and amenable to being accepted, until she informed him that she was herself the mother of a family and cared for two children alone. My friend today holds an executive position in a big company and laughs every time, jokingly, I ask her if she already sent her business card to those who one day did not recognize her talent.

I could continue enumerating here all the situations that denied my 20 years old certainties. All the circumstances that led me to recognize that the independence and autonomy that I was able to conquer, still so young, were not (and still are not) guaranteed to all the women of my and of other generations. I could recapitulate all the facts that led me to conclude that even the path I walked like mine was paved by those women who occupied squares and avenues when I was not even born. I could, but it would be an endless post, so many were the events that rubbed and still rub the crudity of the real world in my face.

And it is because of this reality that, in advance, I celebrate here the International Women's Day, whose importance I once questioned so much. I celebrate it not as an occasion for festivities - a pretext to distribute red roses, but as a date that invites us to reflect on what we are today, where we came from and where we want to go; as a moment to recalibrate strength and strengthen ties, without losing clarity or sweetness. A date to inspire men and women of all nationalities, races, ages, beliefs, religions and gender choices, to seek understanding, harmony, cooperation. A date to simply make us believe that the day will come when we will not need to mark the calendar on the day that reminds us that we are only human.

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sábado, 10 de fevereiro de 2018

Perdas e ganhos / Wins and losses

Há cerca de um ano, escrevi esse texto sobre convicção e resiliência, baseado nos conselhos que cresci ouvindo da minha mãe. Hoje, quando não posso mais ouvir a sua voz (o AVC que a acometeu há quase dois meses lhe tirou a capacidade de falar), eu o republico como uma homenagem a ela e a forma de expressar minhas reflexões ultimamente. Às vezes, é necessário recorrer a velhas palavras para traduzir o que se sente de forma tão contundente. 
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Eu e mamãe:o q é do homem o bicho não come
Há males que vêm pra bem, minha mãe sempre dizia todas as vezes  em que os fatos não correspondiam as minhas expectativas. Era a sua forma de tentar me consolar e, ao mesmo tempo, me  ensinar a ser resiliente. A exercer essa qualidade de reconhecer as circunstâncias adversas, de até se adequar a elas, mas sem se deixar levar ou abater; seguindo em frente na busca do sonho. Hoje, sei, essa é a essência da determinação. Na época, aos treze anos, eu imputava um viés de conformismo à máxima materna e, como toda adolescente que se preza, reagia inconsolável e impaciente: se há regras, sou contra; e quero tudo do jeito que eu quero, para hoje, aqui e agora. 

Eu-quero-porque-eu-quero.

Esse mantra de afirmação e rebeldia que, com mais ou menos intensidade, marca toda passagem pela adolescência, me acompanhou para além da maior idade. Talvez  porque, temendo os confrontos domésticos, antes dos vinte anos, eu o tenha repetido sempre sem alarde. Talvez porque, a partir dos vinte e um e da minha  independência econômica, eu tenha tomado gosto pelos embates e necessitasse escutar minhas discordâncias em alto e bom som.  Talvez porque só na proximidade dos trinta, a vida tenha me mostrado de forma contundente que nem tudo acontece como a gente quer; ou tenha pelo menos colocado à prova o que eu pensava desejar. E foi sobrevivendo a essas quebras-de-braço, que atravessei as fronteiras da chamada idade adulta e, querendo ou não, gostando ou não, vi minha teimosia e impaciência  se transformarem em convicção e determinação. 

“Não era pra ser”… Me ouvi um dia murmurando para mim mesma, após receber um telefonema com a notícia que o emprego que, na época, eu tanto desejava e pelo qual tanto batalhara, não seria meu. “Dias melhores virão”… Me vi, anos depois, repetindo para uma amiga, ao assumir pela primeira vez para alguém além da minha analista, que meu casamento (o primeiro) estava no final. “O que não tem remédio, remediado está”… Me flagrei, em algum momento entre os dois episódios, dizendo a um parente, a quem tentara ajudar a enfrentar uma situação limite, e que decidiu se esquivar – negar o problema, não sair do lugar.

Se esses chavões resignados me consolaram nesses (e em outros tantos) momentos, isso não quer dizer que eu tenha tirado tudo de letra. A resiliência para seguir adiante surgiu do reconhecimento da frustração, da dor da perda, da experiência do luto pelo que poderia ter sido. O luto que nos faz vestir a alma de negro, iluminar a insônia com castiçais e chorar feito carpideiras. O luto que exaure toda a nossa energia e que, por isso,  nos zera, permitindo que desse ‘marco zero’ renasça o desejo, o sonho, a vontade, a determinação de ir em frente. Seja esse em frente aonde for. Porque, como diria minha mãe, com a sabedoria dos seus 93 anos, se hoje pudesse falar: ”o que é do homem, o bicho não come”.  E eu sigo aqui, mãe, batalhando pelo que é meu. 
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One year ago, I wrote this text about conviction and resilience, based on advices I grew up listening to from my mother. Today, when I can no longer hear her voice (the stroke that affected her almost two months ago made her unable to speak), I republish it as a tribute to her and as a way to express my current thoughts. Sometimes it is necessary to resort to old words to translate what you feel so bluntly.
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There are bad things that happen for the good, my mom always said when my expectations were frustrated. This was her way to comfort me and teach me how to be resilient. How to build the ability to recognize adverse circumstances, adjust to them and not lose the track to pursue my dreams. Now, I know, this is what determination is made of. At the time, at thirteen years old, I thought this was too much resignation for me and, as most teenagers do, reacted impatiently: things had to be the way I thought they should be. 

The stubbornness, which is a kind of teenagers’ brand, followed me to ages far beyond the adolescence. Maybe because, before turning twenty, I was afraid of domestic confrontations and decided to be silently stubborn. Maybe because after being twenty-one and reaching my independency I felt brave to speak up. Maybe because only when I got close to the thirties I got strong evidences that not always life is how we wish, or at least had my wishes tested. The fact is: those were defining moments to turn my lack of patience into resilient conviction and determination.

“This was not meant to be”… I heard myself whispering, one day, after answering a call that told me my dream job would not be mine. “Better days are to come”… I noticed myself telling a friend, years later, when I first recognized my marriage (the first one) had come to an end. “It is what it is”… I realized myself repeating to a relative I had tried to support on a difficult situation and who decided not to face the problem. 

The comfort these sayings express does not mean it was easy for me to overcome those situations. The resilience to move forward came from the recognition I was frustrated, I was in pain because I had lost something or someone I loved, I had to live the grief. The grief that makes us wear black, light up candles and cry a river. The grief that drains all of our energy to zero and from there allows our wishes, dreams, desires and determination to blossom again. To move forward, no matter where forward is. And here I am, mom, going ahead. 
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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A mãe e a filha possíveis / The possible mum and daugther

Minha mãe, não importa a idade, na minha memória
Depois de 28 dias internada numa UTI, por conta de um AVC devastador, que  a acometeu logo após o Natal,  minha mãe recebeu alta para permanecer hospitalizada em um quarto, na quinta-feira passada.

Sei que eu deveria estar feliz e esperançosa, agradecendo as preces de tantos amigos e familiares que, desde o dia 27 de dezembro, vêm me acompanhando nessa saga. Entretanto, quando olho pra minha mãe, paralisada em um leito de hospital, sem poder falar, alimentada e urinando por sonda, me encarando com seu olhar castanho-aflito-profundo-intenso, sem que eu consiga decifrar o que ela tenta me dizer, não consigo celebrar, não consigo agradecer, só consigo perguntar: por quê?

Por que ela? Por que nós? Por que eu, que,  mais que ateia sou à toa, e cresci ouvindo minha mãe dizer:

“Se o preço de viver muitos anos é ficar presa a uma cama, dependendo de todos pra tudo, prefiro morrer jovem!”

Essa frase causava tamanho efeito em mim, que me lembro dos meus primeiros pesadelos com a orfandade materna, aos oito anos. E era ela quem deles me resgatava. Me acordava com um milhão de beijos (na minha percepção/contas de criança) e promessas veementes de que ela não morreria tão cedo — ou, pelo menos, enquanto eu não estivesse crescida e fosse capaz de ser dona do meu próprio nariz.

O tempo passou, felizmente ela pode cumprir a promessa e eu cresci, segura de que ela estaria sempre ali pra mim e por mim. Chegamos aqui, nesse lugar, onde agora estamos: ela cumprindo o destino que sempre negou e temeu; eu adivinhando sua dor, ao encarar o vaticínio do qual ela sempre desejou esquivar-se.

Desempenho, nem sempre de forma resignada - confesso - esse papel de testemunha e de pré-órfã tardia, aos 60 anos. Sim, porque vamos combinar: essa que dorme imóvel,  no leito hospitalar, já não é mais a mãe que, na infância, me livrava dos maus sonhos; que, na minha adolescência, apaziguava as angústias do processo de me tornar gente grande; e  que, no início da minha vida adulta, me encorajava a ganhar asas e a voar em busca de quaisquer que fossem meus sonhos...

Nem de longe essa é a mãe que me acompanhou e me deu colo em todos os momentos em que cai, precisei me recolher, chorar, sarar as feridas, me recompor e seguir na luta. Não importa se os tombos aconteceram na chegada aos 30, na transição para os 40, ou no susto de ultrapassar os 50 e alcançar os 60 cuidando dela e do meu pai como duas aves raras e queridas — eles, meus passarinhos.

Não importa, mãe. Você pode parecer não ser mais aquela que fincou os alicerces da minha vida, mas, ao mesmo tempo, te reconheço nessa que, hoje, aqui, quase jaz no leito do hospital e de vez em quando desperta, para me olhar profunda, castanha e silenciosamente. E como isso doi!

Queria eu, mãe, ser onipotente pra te livrar desse pesadelo; queria eu poder me refugiar em alguma fé, para acreditar que você sairá dele é voltará pra casa, como se nada tivesse acontecido; queria eu poder ser grata, por termos chegado até aqui e você continuar, viva, da forma possível — minha mãe possível.

Ah, mãe, eu queria poder tantas coisas!...  Mas sou apenas essa que, aparvalhadamente, repete que você não merecia esse purgatório;  que chora impotente diante desse seu destino inevitável e que tenta consolar-se com as mesmas palavras que você repetia, toda vez que me via em desalento: vai passar, vai passar.

Me perdoa, mamãe, por eu poder quase nada. Por não poder tocar trombetas de aleluia, pregar que Deus é mais e afirmar cegamente: tudo acabará bem. Por ser apenas essa sua filha, única filha —  aflita, assustada e, tantas vezes, revoltada. Essa que, profanamente, suplica para que você sofra o menos possível. Esta que sou eu: a filha possível.

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Translation to English will be published tomorrow, Sunday, Jan 28


sábado, 13 de janeiro de 2018

Os cem anos possíveis / The possible centennial


Ontem, meu pai fez cem anos. Ao contrário do que eu vinha planejando, não celebramos seu centenário com o almoço para cem pessoas de diferentes gerações, que, de alguma forma fizeram/fazem parte da vida dele. Minha mãe caiu seriamente doente, foi hospitalizada pouco antes da véspera de Ano Novo e isso determinou a mudança de planos. 

Meu pai, cem anos e um dia -- Foto: Vera Dias
Das dez décadas que meu pai viveu até aqui, mais de seis foram ao lado da minha mãe. Os dois têm mais tempo de vida juntos do que já viveram sozinhos. E nessa jornada de companheirismo, um sempre viveu em função do outro. Faz tempo que os defino como ‘meus passarinhos’ e que testemunho: sua alegria de viver está relacionada às pequenas rotinas em conjunto — aspergir água no outro, depois de molhar as penas ao beber água; comer alpiste junto na mesma cumbuca; bicar o cangote quando o outro dorme ou está distraído, simplesmente para dizer —Oooii! Eu estou aqui!
Meu pai e minha mãe um ano atrás 

As rotinas podem não ser exatamente essas, mas me lembram esses rituais de piriquitos em viveiros. Não me recordo mais, quando comecei a vê-los assim. Em que momento, precisamente, eles deixaram de ser meus pais, para se tornarem meus filhos — um processo que se intensificou nos últimos três anos e que fui, apavoradamente, abraçando, assumindo. Logo eu, que nunca quis filhos... 
Só sei que quando me dei conta, já estava assim: tomando providências para que não faltasse água, nem alpiste; para que a luz e o calor do sol alcançassem a gaiola na hora e intensidade certas; para que atenção e carinho estivessem sempre presentes. 

Aprendi a.tomar conta. Ainda que contratando cuidadoras-anjos-da-guarda, para preservar-lhes a casa onde sempre viveram, a rotina que com os anos avançando serviu como ancora. Ainda que estando muitas vezes ausente, para ganhar um dinheiro a mais, a fim de garantir esse ninho. Porque minha mãe sempre disse: quem ama cuida. Eu diria que, tendo que cuidar, descobri conjugações do verbo amar que até então desconhecia. 

E foi conjugando esse verbo, que ontem celebrei o centenário do meu pai. Comemoramos não da forma desejada e planejada,  e que definitivamente ele merece, mas da forma possível. Apesar da ausência da minha mãe, apesar da saudade que sentimos dela, apesar de todos os pesares. Afinal, como disse meu pai, antes de apagar as velinhas: “são cem anos e eu ainda estou vivo”. 

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Yesterday, my father completed one hundred years old. Despite of what I had been planning, we did not celebrate his centennial with a lunch for one hundred people of different generations, who somehow were / are part of his life. My mother fell seriously ill, was hospitalized shortly before New Year's Eve and that determined the change of plans.

Yesterday, we just gathered a few friends around for a piece of cake. We did it for him, for her, who would never agree not to celebrate this moment, and for me - that I am here trying to manage this mix of emotions, which brings sadness, longing, frustration, uncertainty and fear about the future.

Of the ten decades my father has completed, more than six he lived in my mother's side. The two of them have more time together than they have ever lived alone. And in this journey of fellowship, one always lived by the other. I have long defined them as 'my little birds' and could see: their joy of living is related to the small routines they follow together - sprinkling water on the other, after wetting the feathers when drinking water; eat canary seed together in the same bow; Peck when the other sleeps or is distracted, simply to say: Hi!! I am here!

The routines may not be exactly these, but they remind me of these rituals of parakeets in nurseries. I do not remember when I started seeing them like this. At what point, precisely, they have ceased to be my parents, to become my children - a process that has intensified in the last three years and which I have been terrifyingly embracing, assuming. Me, who never wanted to be a mother ...
I only know that when I realized it, it was already this way: taking care that there was no shortage of water or canary seed; so that the light and heat of the sun reached the cage at the right time and intensity; so that attention and affection would always be present.

I learned how to take care. Although hiring caretakers-guardian angels, to preserve the house where they have always lived, the routine that with the years advancing served as an anchor. Although not being present all the time, as I needed to make money to afford and secure this nest. Because my mother always said: who loves cares. I would say that, having to take care of them, I discovered  how to conjugate  the verb to love in ways I have never known till then. 


And it was conjugating this verb, that yesterday I celebrated my father's centennial. We celebrated it not in the desired and planned way, and that definitely he deserves, but in the possible way. Despite my mother's absence, despite our homesickness, despite all the regrets. After all, as my father said, right before we started singing happy birthday to him:  "I am one hundred years old and still alive."




sábado, 30 de dezembro de 2017

Um conto (felino) de Natal / A feline Christmas tale

 A estação Brigadeiro do metrô de São Paulo fervilha, às 20.00, do último dia útil, antes do Natal. Transeuntes à caminho de baladas comemorativas se misturam aos que, como eu, querem apenas chegar em casa rapidamente, depois de um dia cheio. Na escada rolante que me leva à saída da Paulista com a Carlos Sampaio, antecipo o prazer de tomar uma chuveirada, bebericar uma boa taça de espumante e começar a me preparar para o Natal e, por que não?, celebrar antecipadamente a chegada de 2018.

Onassis e Péricles - Foto de Vera Dias
Ao chegar ao nível da rua, deparo com um grupo de pessoas que se aglutinam em torno do vão da escada. Ali, um gatinho de menos de dois palmos se encolhe assustado. As pessoas o olham e se perguntam quem o terá abandonado. Me junto a elas e os olhos amarelos do filhote logo me encaram com intensidade. Ele solta uns guinchinhos que pretendem ser miados. Um pedido de ajuda quase inaudível na barulheira típica de um começo de noite, no centro paulistano.

Sinto vontade de chorar, ao vê-lo tão vulnerável. Acuado, o bichinho, tenta escapar em direção aos degraus em movimento. Se seguir em frente, vai certamente se machucar. Me aproximo e, num pulo, o agarro antes que se aventure no próximo passo. Ele se coloca em guarda, fica com o pelo tigrado todo eriçado, solta mais uns guinchinhos, mas, ao se ver seguro no meu colo, logo se acomoda. Escala meu braço e pousa o focinho bem abaixo do meu pescoço. Seu olhar dourado tenta adivinhar minhas intenções.
As pessoas em volta começam a se manifestar:

“Moça, leva ele com você” - diz uma delas.

“Se ele ficar aqui, vai morrer” - completa, enquanto uma outra vai logo emendando:

“Eu já tenho seis gatos e dois cachorros; todos adotados depois de resgates assim, nas ruas. Se não fossem tantos, levava ele pra mim”.

Tento explicar que também já tenho um gato – o Onassis -- um jabuti – o Péricles --  e um marido, chamado Lucillo, convicto de que não devemos ter mais nenhum animal de estimação. Porém, antes de articular qualquer coisa, sou interrompida por uma moça, que se aproxima com um vidro cheio de leite. Através de um conta-gotas,  ela oferece o alimento ao gato. O bichano sorve com sofreguidão as gotas que lhe caem sobre o focinho.

“Achei que ele deveria estar com fome, tadinho! “ - diz ela, aparentemente feliz com a própria iniciativa, enquanto enche o conta-gotas pela terceira vez.

O gatinho lambe os beiços, mas não desgruda do meu colo. Pergunto à moça que o alimenta se não quer ficar com ele, mas ela logo descarta a possibilidade, alegando ser alérgica.

“Não fosse isso, ele já seria meu. Adoro bichos”- completa, me entregando vidro com leite e conta-gotas, como quem delega uma responsabilidade.

Minha responsabilidade.

O gato mordisca o conta-gotas vazio, pedindo mais leite. Peço ajuda a um casal que, durante todo esse tempo, percebi discutindo se deveriam ou não ficar com ele. O rapaz se aproxima, mas não consegue tirar o animal do meu colo. O bichano crava as unhas na minha jaqueta; porém, aceita de bom grado mais doses de leite. O rapaz ri e faz um diagnóstico:

“ Ele não é gato; é gata”

“Como assim?” - pergunta a moça que o acompanha.

“Assim - ele responde, apontando para o traseiro do animal. E isso o faz chegar rapidamente a uma conclusão:

“Não vai dar certo lá em casa” - diz, olhando pra mim. “A Rebeca, a gatinha que temos, só admite machos no território dela” -  explica.
Ao que sua companheira completa:

“Até a mim ela estranha!”.

Isso me faz lembrar da Clementina, a gata que antecedeu o Onassis na minha vida. Apesar de tê-la adotado com apenas três meses e dela ter vivido sozinha comigo durante seus primeiros seis anos, quando me casei, em 2002, ela se convenceu que meu marido era dela e, a partir daí, passou a me tratar como se eu fosse a outra na vida dele... Foi assim até que virasse estrelinha, ao completar 16 anos, em 2012.

Conto essa história ao casal e emendo com a adoção do Onassis – finalmente é minha vez de falar!
Relato como ele foi arremessado, com menos de três meses, sobre um muro com grades de segurança e aterrissou no quintal de um casal amigo com a barriga aberta, sendo quase abocanhado pelo cachorro-dono-do-pedaço.

Um senhor ouve a história e se junta a nós para compartilhar a sua – a da  gata Serafina, que escolheu seu jardim para parir uma ninhada de cinco:

“E eu não tive coragem de me desfazer de nenhum; adotei os seis!”

Uma senhora escuta e logo diz que o seu gato, Veludo, elegeu seu quintal como moradia, depois que a viu brigando com os moleques da rua que zuniam com bichanos pelo rabo.

Enfim, mais pessoas vão se juntando nesse cordel de relatos felinos, e através dele vamos nos reconhecendo como uma comunidade: #gatinhaabandonadanometro. Tacitamente concordamos que, se nenhum de nós pode adotá-la, só arredaremos o pé dali, quando encontrarmos quem o faça. O que nos surpreende é que a hashtag nem precisou ganhar as redes sociais.

Duas histórias depois do relato da dona do Veludo, uma moça, até então silenciosa, conta que seu gato, Bundão, de 19 anos, morrera há dois meses, As lágrimas correm pelo seu rosto, enquanto ela compartilha a saga do felino que recebeu o aumentativo de bunda como nome, porque tinha um traseiro desproporcionalmente maior que o resto do corpo…  

Parecendo entender o que está acontecendo, a gatinha sem dono e,  até então, sem nome, pula do meu colo para o da moça de luto. E ela (a moça), que havia jurado nunca mais adotar bicho algum, imediatamente tira a echarpe do pescoço, para aconchegá-la num abraço,  Entre salva de palmas para a nova dona, a gatinha é batizada de Bundinha e, num gesto imediato, todos  nós da hashtag recém criada nos abraçamos desejando feliz Natal.
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The São Paulo subway Brigadeiro station is crowded at 8.00pm on the last working day before Christmas. Party people who are ready to celebrate cross with those who, like me, just want to get home quickly, after a busy day. On the escalator that takes me to Paulista's exit with Carlos Sampaio, I anticipate the pleasure of taking a shower, sipping a good glass of sparkling wine and starting to prepare myself for Christmas and -- why not? – for celebrating in advance the arrival of 2018 .

As I reach the street level, I stumble across a group of people clustered around the stairwell. There, a kitten less than two-quarters shrinks in fear. People look at him and wonder who had left him there. I join them and immediately notice the puppies’ yellow eyes staring at me. He meows in a baggy way in the middle of the typical noise of an early night in downtown São Paulo.

I feel like crying before his vulnerability.  Scared, he tries to escape towards the moving steps. I realize he will definitely get hurt if he moves ahead. I jump and grab him before he ventures into the next step. He puts himself on his guard, lets out a few more sneaks, but when he feels safe in my lap, he settles down. He rests his snout just below my chin and with with his golden gaze tries to guess my intents.
People around us begin to manifest:

"Girl, take him with you," one of them says.

"If he stays here, he's going to die," another person adds and continues:

"I already have six cats and two dogs; all adopted after such rescues in the streets. If they were not so many, I would take this one with me. "

I try to explain that I already have a cat -  Onassis - a turtle - Pericles - and a husband, named Lucillo,  who is convinced we should not have any more pets. But before I articulate anything, I am interrupted by a girl with a glass full of milk.  Through an eyedropper, she offers it to the cat. The pussy gently sips the drops that fall on his muzzle.

"I thought he should be hungry, poor thing! "- she says, apparently happy with her own initiative, while filling the eyedropper for the third time.

The kitten licks his lips without detaching from my lap. I ask the girl why doesn't she take him with her and she immediately dismisses the possibility, claiming to be allergic.

"If it was not for that, he would already be mine. I love pets "-  she completes, handing me the glass with milk, the eyedropper, and delegating the responsibility.

My responsibility.

The cat nibbles at the empty eyedropper begging for more milk. I ask for help from a couple who, during all this time, I noticed discussing whether or not they should stay with the puppy. The boy gets closer, but cannot get the animal from my lap. The pussy nails my jacket; however, he willingly accepts more milk doses. The boy laughs and makes a diagnosis:

"He's not a he. He is a she."

"How come?" Asks the girl who is with him.

"Like this," he replies, pointing to the animal's buttocks. And that makes him come quickly to a conclusion:

"This will not work at home," he says, looking at me. "Rebekah, the kitten we have, only admits males in her territory," he explains.
To which his companion completes:

"Some times she can not even get along with me!"

It reminds me of Clementina, the cat that preceded Onassis in my life. Although I had adopted her with only three months and she had lived alone with me during her first six years, when I got married in 2002, she became convinced that my husband belonged to her, and from then on she treated me as if I were his lover ... and it was like this until she passed away in 2012.

I tell this story to the couple and link it to Onassis’adoption - it's finally my turn to talk!
I report how Onassis was thrown over a wall with security bars, when he was less than three months, and landed in a backyard with his belly open and bleeding.

A gentleman hears the story and joins us to share his - that of the cat Serafina, who chose his garden to give birth to a litter of five:

"And I did not have the courage to get rid of any; I adopted the six of them!"

A lady listens to him and quickly says that her cat, Velvet, has chosen her backyard as home, after he saw her arguments with the boys next door who used to throw pussies away grabbing them by their tails. .

More people join this string of feline reports, in a way that we quickly recognize ourselves as a community: #subwayabandonnedcat. We tacitly agree that if none of us can adopt the little cat, we will only leave her, when we find someone who can do so. The hash tag hasn’t even had to be posted at social networks.

Two stories after Velvet’s owner's, a till then silent girl, tells us that her 19-year-old cat, Big Butt, had died two months ago. Tears run down her face as she shares the cat's saga --  he received the augmentative of butt as a name, because he had a disproportionately larger rear than the rest of the body...

Seeming to understand what's going on, the, till then, nameless kitten jumps from my lap to the mourning girl's. And she (the girl), who had sworn to never adopt a pet again, immediately takes the scarf from her neck, to embrace the cat in a hug,


Among applauses for her new mistress, the kitten is immediately baptized as Little Butt, and all of us who had recognized ourselves as part of that hash tag community end up embracing each other and wishing Merry Christmas.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Carta a Papai Noel / Letter to Santa Klaus

Talvez porque já seja quase Natal e 2018 já esteja logo ali. Talvez porque essa época do ano me deixe mais sensível do que de costume, um tanto melancólica – quase sentimental. Talvez porque esse misto de emoções me remeta ao encantamento de ir à feira com minha mãe, escolher nosso pinheirinho, para depois tranformá-lo na nossa árvore natalina, num ritual quase religioso que todas as palavras são poucas para descrever.  Talvez por conta de tudo isso (junto e misturado :--), eu me veja aqui ensaiando uma carta para Papai Noel. 

Imagem Google
Eu sei. Faz tempo que sei que Papai Noel não existe. E lembro, exatamente, da decepção e do desalento que senti quando, aos dez anos, fiz essa descoberta. Já havia mais ou menos dois anos que amiguinhos mais velhos cacarejavam a verdade nos meus ouvidos e que adultos, incluindo meus pais, dissimulavam evasivas entre sorrisos-amarelo, quando eu lhes fazia a pegunta à queima-roupa.  Porém, eu me recusava a acreditar nessas evidências. Me negava a aceitar que uma verdade, pra mim, tão absoluta pudesse ser apenas  ‘mais uma história para crianças’ , mais um conto da carochinha. 

Foi quase por acaso que minha certeza evaporou como bolhas de sabão. Numa antevéspera de Natal, na casa da minha madrinha e Tia Dudu onde passávamos todos os Natais (ja mencionei esses Natais em outros posts), entreouvi uma nesga de conversa entre minha prima mais velha, Ana, e a mãe, em que, referindo-se a Papai Noel, a prima adolescente dizia: 

“ Alguém precisa contar a verdade a Verinha, ou ela vai acabar sabendo da pior maneira possível”. 

Não precisei ouvir a resposta cheia de ‘mas mas’ da minha tia, para entender que havia sido enganada todos aqueles anos. Para experimentar a humilhação de ter acreditado tão piamente em alguma coisa que não existia. Para sentir o gosto, que muitos anos depois e guardadas as devidas proporções, entenderia: era o sabor acre e indigesto da traição. Para ver o que eu entendia como confiança reduzido a cacos – a cacos de cristal, impossíveis de colar. 

Sei que estou parecendo melodramática, mas o que posso fazer? Eu me sentia mesmo assim: devastada. De uma tal forma, que me escondi no fundo do quintal para chorar. Chorar por ter sido boba e ter me negado a enxergar o que tantos a minha volta apontavam. Chorar por ter aceitado as evasivas adultas em reação às minhas tentativas de tira-teima, por causa do temor de me decepcionar. Chorar por ter depositado tanta esperança nas longas cartas que eu endereçara ao ‘bom velhinho’ a partir do momento que aprendi a escrever e que, a partir daquele instante, eu sabia: não existia.  Aonde teriam ido parar aquelas cartas? 

Foi no meio de todo esse desconsolo e com a cara inchada e vermelha de tanto chorar, que meu padrinho e tio Leo (também já falei sobre ele em outros posts) me encontrou, ao dirigir-se ao galpão no fundo do quintal em busca de uma ferramenta. Ficou tão desconcertado ao me ver naquele estado, que não disse nada; apenas sentou-se no chão ao meu lado, debaixo da goiabeira. Não sei quanto tempo ele ficou ali, em silêncio, escutando os meus soluços, esperando que as lágrimas se esgotassem e eu me dispusesse a falar. Pra mim, foi uma eternidade, mas ele respeitou o meu tempo.

E ele nem precisou fazer perguntas. Quando, finalmente, consegui articular o que estava sentindo, as palavras surgiram aos borbotões;  vociferando toda a minha raiva, toda a minha decepção, toda a vontade que eu tinha em voltar no tempo e apagar aquele fato da minha vida (de apenas uma década, mas que naquele momento parecia o que eu vislumbrava como ter cem anos!). Entre uma frase e outra, eu batia na mesma tecla: 

“E as cartas  que escrevi ao Papai Noel? Aonde foram parar as cartas?!!!!!!

Assim como os soluços, as palavras também esgotaram. E meu tio, com a sua paciência amorosa, esperou pelo silêncio. Quando se certificou de que ele não seria mais interrompido por nenhum outro rompante, me deu a mão e, ali, sentado sob a goiabeira, me contou que, muitos anos antes, quando lhe contaram a verdade sobre Papai Noel, sofreu tanto, que teve febre durante três dias e passou outros tantos sem comer. Perambulava inconsolável pela casa e, assim como eu, também só se perguntava o que havia sido feito das suas cartas natalinas e de tudo o que havia depositado nelas.  Até que, numa noite, acordou com uma rena batendo no vidro da janela do seu quarto. Ela tinha vindo convidá-lo para visitar o bom velhinho. Ele estranhou e reagiu disparando a verdade: “Papai Noel não existe!”. Ao que a rena refutou: 

“Você está enganado, Leo. Papai Noel existe sim. Existe na nuvem cor-de-rosa da imaginação das crianças”. 

Ele pulou da cama sobressaltado e viu que havia sonhado. Muitos anos depois, encontrou tanto conforto naquele sonho, que incorporou a tal nuvem cor-de-rosa ao resto da sua vida. Não só para abrigar Papai Noel e explicá-lo a seus próprios filhos, mas também para alimentar o seu olhar de menino, a sua alegria  e disposição para continuar soltando pipa com a garotada, a sua sensibilidade para não deixar uma menina inconsolável, mesmo que fosse por ‘uma bobagem’, como poderia parecer a muitos.  Ainda que ela fosse um pouco difícil de convencer e não parassse de perguntar: 

“Mas e as cartas, Tio Leo?!!!! O que foi feito das minhas cartas de Natal?!!!!”  

Tudo bem que Papai Noel pertencesse a esse universo de nuvens cor-de-rosa, que só dependia da minha imaginação acreditar ou não na sua existência e que eu não precisava me sentir melhor ou pior que ninguém ao optar pela crença. Tava tudo certo. Bacana. Mas eu queria saber das minhas cartas!!!! 

“O que foi feito das cartas que escrevi a Papai Noel, Tio Leo?”

Meu tio não se intimidou por não ter uma resposta mágica (como a da nuvem cor-de-rosa). Apenas disse que não sabia o que havia sido feito das cartas que eu escrevera até ali. E afirmou que, na verdade, isso também não importava, porque o que realmente contava eram as cartas que eu passaria a escrever dali pra frente. 

Acho que vem daí o meu gosto pela prosa. Esse prazer de escrever relatos, como se endereçasse missivas a mim mesmo, como se construísse pontes para, ao me reconhecer no destino, poder chegar ao outro. O prazer que -- hoje sei -- descobri lá atrás, através daquelas cartas natalinas que até hoje não sei onde foram parar. O prazer que meu tio Leo não deixou que morresse com a ilusão de Papai Noel. 
Como ele, meu tio, não está mais aqui para que eu possa agradecer o tesouro que me possibilitou guardar, faço deste post a minha carta de Natal: 

“Querido Papai Noel, …” 

 Ou seria?: 

“Querido Tio Leo, neste Natal de 2017, não importa que nuvem cor-de-rosa você habite, …”

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Maybe because it is Christmas and 2017 is already around the corner. Maybe because the holidays season makes me feel more sensitive, a bit melancholic, almost sentimental. Maybe because this mix of emotions refers to that unique enchantment of choosing and decorating the Christmas three with my mom. Maybe because of all of these things together, I find myself drafting a Santa Klaus’ letter.

I know. It has been a while I know Santa does not exist. And I remember my disappointment when, at ten, I discovered the truth, regardless of the fact my older friends had whispered it on my ears so many times and adults, including my parents, had always smiled evasively whenever I tried to ask them the question. Those evidences were not enough. 

It was almost by chance I had to face the reality. I was at my aunt Dudu’s home for the family Christmas celebration (I have mentioned these gatherings in a former post), when I, not on purpose, heard her conversation with Anna, my oldest cousin. Referring to Santa Klaus, Anna simply warned her mother:

“Someone needs to tell Verinha the truth or she will discover it through the worst way possible”. 

I did not need to listen to my aunt’s full of buts answer to conclude people had lied to me all those years and to feel humiliated, disappointed, disregarded. To see the trust I had in them falling apart, as a broken crystal vase you will never pull together again. 

I know this maybe seen as too much drama, but what can I say if I really felt devastated? If I felt so miserable, that I hide myself at the bottom of the backyard where nobody could find me to cry. I simply needed to cry. I had to cry for being a fool who had ever denied evidences. I had to cry for writing so many letters to Santa, sharing my dreams, sharing my hopes. Where, to whom those letters had gone? 

My uncle Leo (about whom I have also written in this blog) found me in the middle of this sorrow, when he headed to the tools house at the furthest end of the backyard. He got so embarrassed in seeing me weeping and sobbing that he did not say a word; he simply sit besides me below the guava. I do not know how long he stayed there silently. I only know that when I stopped crying he was there to listen to all I had to vent. And there he stayed till I got tired and shut up. Then, he held my hand and started telling me how much he also suffered when, many years before, he discovered the truth about Santa. He got a fever, did not eat for three days and, like me, did not stop asking about the letters he had addressed do ‘the old man’. Till the night he woke up with a reindeer knocking at the window to invite him to visit Santa. He immediately said Santa Klaus did not exist and heard back from the reindeer: 

“You are wrong, Leo. Santa does exist. He exists in the pink cloud of children’s imagination”. 

He later realized that the conversation had been a dream. But the point is it made him feel so comforted, that he decided to incorporate that pink cloud to his life. He made that decision not only to house Santa, but also to preserve his boyish glare and keep his sensibility sharp enough to comfort a little crying girl who was suffering for something many adults would define as silly. Even though this girl was not easy to convince and kept asking: 

“What about my letters, uncle Leo?!!!! What was made of them?!!!!”

My uncle did not feel intimidated by his lack of a magical answer. He only said he did not know about the letters I had written till then and that, actually, he was not concerned about them. He said his worries regarded the letters I was up to write from that moment on.

Today I know he discovered my writing gift before I could be aware of it and made what he could to keep it alive regardless of my disappointment with the truth about Santa. As uncle Leo is not around anymore, I cannot thank him. I can only write this post in his memory as a Christmas letter. So, here it goes: 

“Dear Santa…”

Or should that be: 

“Dear Uncle Leo, this is 2016 Christmas and no matter where is the pink cloud you now live in…”

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